domingo, 20 de outubro de 2013

5 anos após pacificar área violenta do Haiti, Brasil volta a enfrentar gangues

G1 - notícias em Mundo

'Dei o 1º tiro', diz oficial brasileiro responsável pela segurança de Cité Soleil.
Soldados do MS foram encurralados em tiroteio, em agosto, e revidaram.

Tahiane Stochero Do G1, em Porto Príncipe - a repórter viajou a convite do Ministério da Defesa

Capitão Faria comanda tropas do MS na área mais violenta do Haiti, Cité Soleil, e se envolveu em um confronto com as gangues em agosto, após 5 anos de relativa calma na região (Foto: Tahiane Stochero)

Mais de cinco anos após pacificar Cité Soleil, área considera pela Organização das Nações Unidas (ONU) como a mais pobre e violenta do Haiti, o Exército brasileiro voltou, em agosto deste ano, a enfrentar grupos armados. Em um dos tiroteios, soldados do Mato Grosso do Sul ficaram encurralados e tiveram que realizar 20 disparos de fuzil, o que não ocorria desde 2007.

Cité Soleil é reduto de rebeldes que apoiavam o ex-presidente Jean Bertrand-Aristides, e se tornou conhecida internacionalmente como uma "fortaleza" onde grupos armados impunham terror à população. Foi a queda de Aristides, em 2004, durante um princípio de conflito civil, que fez a ONU criar a missão de paz para estabilizar o país caribenho (chamada de "Minustah") O Exército brasileiro comanda a Minustah e possui o maior efetivo - cerca de 1.300 soldados - e é responsável por cuidar de Cité Soleil.

Militar brasileiro brinca com crianças em Cité Soleil,
na capital haitiana (Foto: Tahiane Stochero/G1)

Eu dei o primeiro tiro. Vi um homem de longe apontando uma arma na minha direção e depois vi o clarão do disparo dele"
Victor Faria, capitão do Exército

Entre 2006 e 2007, uma série de operações, comandadas pelo Brasil, prenderam e mataram vários criminosos. Desde então, a Polícia Nacional Haitiana (PNH) começou a atuar na região. A situação de relativa tranquilidade acabou entre junho e agosto de 2013. Diante da indefinição de um cronograma para as eleições, que devem ser realizadas em 2014 para o Senado e as prefeituras, grupos armados apoiados por grupos políticos voltaram a se enfrentar em Cité Soleil, preocupando a ONU.

Os assassinatos, considerados raros até então, passaram a ser frequentes. Foram de 5 a 10 por semana em uma área de 5 km quadrados. Corpos decapitados, comuns entre 2004 e 2007, voltaram a ser encontrados nas ruas, e tiros ouvidos todas as noites pelos 140 soldados brasileiros, que são originários de Mato Grosso do Sul e estão morando dentro da favela.

Um dos confrontos ocorreu quando 16 soldados brasileiros ficaram encurralados em Boston, uma das áreas disputadas pelos criminosos. “Eu dei o primeiro tiro”, diz o capitão Victor Bernardes Faria, de 32 anos, que comanda a companhia do Brasil em Cité Soleil.

Ele estava junto com os soldados em uma patrulha à noite quando a troca de tiros entre as gangues começou.

“Vi um homem de longe apontando uma arma na minha direção e depois vi o clarão do disparo dele”, conta o oficial, que estava com mais 8 soldados em um beco de uma rua. Mais à frente, na mesma rua, um sargento que comandava o restante do grupo também foi alvo de tiros e revidou.

O comandante lembra ter orientado o subordinado a não avançar, pois os bandidos estavam logo a frente e, se seus soldados saíssem do local onde estavam abrigados, estariam em perigo.

Faria pediu apoio de blindados dos Fuzileiros Navais e do Destacamento de Operações de Paz (DOPaz), a tropa de elite que o Exército possui no Haiti para ações de risco, para resgatar os soldados encurralados.

“Por sorte nenhum dos meus homens ficou ferido. Nossa maior preocupação é com efeito colateral (feridos ou mortos civis nos confrontos). Mas os soldados foram treinados e só atiram quando conseguem identificar e ver o alvo (um suspeito)”, afirma o capitão.

Estes foram os primeiros disparos reais na vida do oficial, que trabalha no 47º Batalhão de Infantaria, em Coxim, no Mato Grosso do Sul. Casado e sem filhos, Faria acredita que os disparos não foram direcionados contra a tropa do Brasil, mas sim, de um confronto entre os bandidos.

Ao contrário de 2007, quando a ONU autorizava o Exército a ter ações pró-ativas e atacar as gangues, hoje esta responsabilidade é da polícia haitiana. O Brasil só dá o apoio necessário. A ONU fez uma investigação sobre o caso e, segundo o capitão, encontrou cartuchos de fuzis e pistolas no local do confronto, tanto usados pelo Exército brasileiro quanto pelos criminosos.

População diz que violência voltou

“Os brasileiros entraram aqui em Cité Soleil em 2006 e 2007 e pacificaram, prenderam todos os bandidos. Antes a violência era ruim, os criminosos atiravam todas as noites, a gente não podia sair de casa. Os brasileiros acabaram com aquilo. Agora que os brasileiros passaram para nossa polícia agir, a situação voltou a piorar. Todos os dias os bandidos atiram aqui”, diz o aposentado Merat Jean, de 57 anos, que mora em Boston, área disputada por gangues.

Militares do Brasil fazem segurança de Boston, área de Cité Soleil onde gangues disputam território e soldados brasileiros foram alvo de tiros em agosto (Foto: Tahiane Stochero/G1)

Para poder patrulhar a região à noite, o Exército colocou em postes lâmpadas que são alimentadas por energia solar. O país não possui um sistema de distribuição de energia elétrica e boa parte da capital, Porto Príncipe, fica às escuras à noite.

A tropa brasileira é chamada diariamente para atender casos de brigas - algumas acabam em morte ou ferimentos graves, provocados por pedras e facas. "A população ainda não confia na PNH. O efetivo deles aqui é pequeno, são 6 a 8 policiais por dia, um carro e eles não fazem patrulhamento nas ruas. As pessoas confiam nos brasileiros para passar informações, mesmo a base da polícia sendo aqui do meu lado", diz o capitão.

Militar do Brasil patrulha área mais violenta do Haiti
à noite (Foto: Tahiane Stochero/G1)

"Mas agora a missão mudou e minhas tropas não podem atacar os bandidos, sou a terceira opção. Temos sempre que deixar a polícia haitiana e a polícia da ONU atuarem primeiro", acrescenta ele.

A previsão da ONU, conforme o comandante da Minustah, general brasileiro Edson Pujol, é que a missão chegue a cerca de 3.300 militares em 2016. Os soldados brasileiros devem ser os últimos a deixar a missão, que conta com tropas de 19 países.

"Estamos aqui basicamente para ajudar a PNH a manter um ambiente seguro para que as organizações tanto internas quanto externacionais possam trabalhar. Acho difícil chegar em 2016 e tirar toda a tropa, isso vai ser avaliado anualmente. Vai depender das condições do país de se autogerenciar. No caso da segurança, em especial as condições da polícia de assumir as responsabilidades", aponta.

Sonho brasileiro aquece comércio de documentos e vistos falsos no Haiti

G1- notícias em Mundo

Haitiano ofereceu visto falsificado por US$ 1.700 para repórter do G1.
Desde o tremor de 2010, cerca de 20 mil haitianos imigraram para o Brasil.


Em Pétion Ville, bairro nobre da capital haitiana que abriga a embaixada brasileira em Porto Príncipe, o sonho de fugir da falta de trabalho no país mais pobre das Américas e migrar legal ou ilegalmente para o Brasil virou um nicho de negócio, onde despachantes, falsificadores, aliciadores, coiotes, atravessadores e negociadores tentam ganhar dinheiro. O G1 flagrou na frente do prédio da embaixada a venda de visto e de outros documentos falsificados, além de supostas facilidades que prometem acelerar a viagem dos haitianos ao Brasil.

Haitianos em busca de visto fazem fila na frente da
embaixada brasileira (Foto: Tahiane Stochero/G1)

John, de 28 anos, um dos que oferece serviços para ajudar haitianos na fila, disse à reporter que conseguia um visto para entrar no Brasil por US$ 1.700 (R$ 3.706). Ele não indicou, no entanto, quanto tempo demoraria para entregar o documento e afirmou que só passaria mais informações com a garantia do pagamento. Atestou que, com o visto, é possível "embarcar sem problemas".

Todos os dias, dezenas de haitianos se amontoam em frente à embaixada. Alguns dormem ali mesmo. John é um dos comerciantes que oferece seus serviços para ajudar os haitianos na fila. Por US$ 15 (R$ 32), preenche um formulário necessário para iniciar o processo e que está disponível gratuitamente na internet. Já por US$ 30 (R$ 65), ele monta um currículo.

De camisa e calça social, com um laptop em uma bolsa preta de mão, ele carrega panfletos oferecendo seus trabalhos como "J.J. Services" e garante obter os documentos necessários, expedidos por órgãos públicos, o quanto antes ao preço de US$ 100 (R$ 218) cada. Até mesmo uma entrevista para o visto para o próximo dia 21 de outubro ele promete conseguir.

John afirma que também está em busca do visto para o Brasil, que conhecia haitianos que imigraram ilegalmente e que só quer ajudar quem está em busca do documento.

Em janeiro de 2010, um terremoto de magnitude 7 deixou cerca de 300 mil mortos e milhares de desabrigados, destruindo a infraestrutura pública e privada do Haiti. Desde então, cerca de 20 mil haitianos já imigraram para o Brasil. Segundo a Polícia Federal, 10,8 mil entraram ilegalmente pela fronteira do Acre e pediram refúgio. Em 2013, o número de haitianos que migra desta forma triplicou -foram mais de 6 mil só nos primeiros nove meses deste ano. Outros 2 mil ainda estariam irregulares.


Em 2012, o governo começou a expedir um visto de residência em caráter humanitário na embaixada em Porto Príncipe, reduzindo as exigências e cobrando US$ 200 (R$ 436) pelo documento. Até setembro deste ano, foram expedidos pela embaixada 3.951 vistos individuais e mais 817 vistos de família (que permitem levar a mulher e os filhos para o Brasil). Outros 614 foram expedidos na República Dominicana e no Equador.

Os haitianos reclamam, porém, das dificuldades em obter o documento e de marcar a entrevista. Com isso, buscam meios ilícitos para conseguir o visto.

Segundo o cônsul Vitor Hugo Irigaray, o agendamento das entrevistas – que são feitas por ele próprio – só pode ser realizado por telefone. A embaixada chegou a receber 26 mil telefonemas em um só dia, mas opta por atender apenas 50 ligações. Por isso, as entrevistas podem demorar alguns meses – e esta é a principal reclamação dos haitianos ouvidos na fila pela reportagem.

"Já descobriram até meu celular pessoal, ligaram para minha casa tarde da noite. Antigamente, recebíamos listas de políticos pedindo a expedição do visto. Acabei com isso", afirma Irigaray.

Falsificações

Na embaixada, várias pastas com documentos sob suspeita de falsificação estão sob análise, inclusive vistos. Uma das investigações aponta que a haitiana Nadine Cenor, de 26 anos, comprou por US$ 2.500 (R$ 5.450) um visto e, com o documento, entrou no Brasil pelo Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, em 25 de março deste ano. Ao contrário do padrão brasileiro, o visto dela – com o número 545690 – apresentava o sobrenome e depois o nome. A PF em Cumbica não percebeu a falsificação e oficializou Nadine no Sistema Nacional de Estrangeiros erroneamente: seu nome está cadastrado como Cenor Nadine.

Cônsul no Haiti analisa pedido de visto para entrar
no país de forma legal (Foto: Tahiane Stochero/G1)

"Documentos falsos, como certidões de nascimento, casamento e de residência, aparecem aqui às dezenas. [...] Eu barro aqui ao perceber alguma diferença"
Vitor Hugo Irigaray, cônsul do Brasil no Haiti.

PF, Interpol e diplomacia brasileira apuram casos
de falsificação de visto (Foto: Tahiane Stochero/G1)

"Filas de 400 pessoas se formam na frente da embaixada, é muito fácil alguém se infiltrar lá e tentar oferecer estes serviços. Não temos como coibir e monitorar isso, não é nossa função".
José Luiz Machado e Costa, embaixador do Brasil no Haiti.

De volta a Porto Príncipe para tentar obter uma forma de levar o restante da família para o Brasil, o cônsul percebeu o problema: o visto apresentava coloração e padrão diferente do modelo oficial. PF e as autoridades haitianas foram alertadas da fraude. A PF confirmou que possui investigações, junto com a Interpol, sobre vistos falsos que foram identificados em São Paulo e em Cascavel (PR).

"Documentos falsos, como certidões de nascimento, casamento e de residência, aparecem aqui às dezenas. Até documentos falsos que são validados pelos órgãos do governo haitiano, com carimbos ou selos, que não sabemos se são verdadeiros, pois não há como confirmar. Eu barro aqui ao perceber alguma diferença", explica o cônsul.

Para expedir o visto família, o cônsul entrevista a mulher e o marido, tentando confirmar se são casados mesmo. Em um dos casos de fraude verificado, o casal não sabia nem a data de casamento. Em outro, a mulher apresentou certidão de concubinato com o irmão do marido com o qual possuía um casamento registrado em cartório.

Em agosto, o então ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, mandou o Itamaraty apurar suspeita de fraude para liberação do visto por parte de funcionários haitianos da embaixada. Segundo o embaixador José Luiz Machado e Costa, não foram levantados elementos para confirmar a denúncia que, segundo ele, muitas vezes é feita de má fé por parte de haitianos que desejam acelerar o atendimento.

"O que há são desconhecidos que oferecem serviços do lado de fora da embaixada e que usam de artifícios para explorar e extorquir estas pessoas, que muitas vezes acham que são nossos funcionários", explica ele. Ao redor da embaixada, lan houses e despachantes colocam cartazes, "oferecendo formas de acelerar o processo".

"Filas de 400 pessoas se formam na frente da embaixada, é muito fácil alguém se infiltrar lá e tentar oferecer estes serviços. Não temos como coibir e monitorar isso, não é nossa função", acrescenta o embaixador. Segundo ele, não há como o Brasil cobrar uma repressão por parte do governo haitiano. "Não há aqui uma polícia investigativa para descobrir isso. O que fazemos é trabalhar em campanhas de esclarecimento das informações", defende.

Em junho de 2012, uma haitiana foi presa pela Polícia Nacional Haitiana do lado de fora da embaixada, após ser acionada pelos funcionários brasileiros, "intermediando a solicitação de vistos para grupos e deles cobrando taxas indevidas com o objetivo de supostamente facilitar a obtenção de visto para o Brasil".

Haitianos buscam na embaixada em Porto Príncipe
visto para o Brasil (Foto: Tahiane Stochero/G1)

Em outro caso, diz o cônsul Irigaray, uma mulher chegou à embaixada com uma lista de mais de 200 nomes e passaportes. A intenção deles era vir ao Brasil para um congresso evangélico – cada um deles havia pago US$ 2 mil (R$ 4.360) para ela intermediar o visto. Os passaportes foram apreendidos e a polícia também foi acionada.

Demanda reprimida

Para solicitar o visto de residência em caráter humanitário, a embaixada exige, além de um passaporte, uma certidão de antecedentes criminais, um certificado de residência homologado pela Justiça haitiana, um currículo e o formulário de cadastro da embaixada. São 5 pessoas que trabalham no processo na embaixada em Porto Príncipe e não conseguem vencer a demanda.

Em janeiro de 2012, o Conselho Nacional de Imigração, órgão ligado ao Ministério do Trabalho, aprovou a concessão de 1,2 mil vistos por ano para haitianos que pretendem migrar para o Brasil. O documento, em caráter especial, passou a ser expedido com validade de 5 anos no Haiti, Equador, Peru e República Dominicana. Em abril deste ano, o Itamaraty acabou com o limite de 100 vistos por mês e, agora, só em Porto Príncipe, quase 100 processos são iniciados por semana, demorando em média 3 semanas para serem concedidos. Em 2012, a concessão chegou a demorar até 8 meses, pois os pedidos se amontoavam nas prateleiras.

"A demanda reprimida é enorme, de uns mil a dois mil por dia. Antes, tentavam entrar na embaixada a qualquer custo, queria falar comigo, gritavam aqui na frente. Então criei o sistema de agendamento por telefone por nome e só entra quem está na lista. Temos poucos funcionários aqui, não tem como atender todo mundo", afirma o embaixador.

"Estou há seis meses ligando e nada, não consigo um horário para entregar os documentos", diz o agrônomo Jolvin Celestin, de 30 anos. Formado em Cuba, ele quer migrar para o Brasil porque vê o Brasil como "um primo do Haiti que deu certo". "Aqui não tem trabalho, tem que sair do Haiti para conseguir dinheiro", defende Celestin.

Também na frente da embaixada, Louis Hubert, de 32 anos, reclamava do processo. "Esta história de só poder agendar por telefone é ruim, a gente liga, liga, e ninguém nunca atende. Tenho 4 ou 5 amigos que foram ilegais para o Brasil, eles querem me levar, mas eu acho muito arriscado, você pode demorar meses para chegar lá e ainda ser preso, torturado. Vou continuar tentando o visto", diz.

sábado, 5 de outubro de 2013

Uma história inspiradora em La Source!

Verdade.co

Quando em 2010, duzentas mil pessoas morreram no Haiti, em resultado de um terramoto devastador, as comunidades da pequena vila de La Source já enfrentavam, há anos, várias doenças por consumo de água imprópria. No entanto, desde a sua infância, esta realidade preocupava Josué Lajeunesse, o protagonista – que se tornou herói – do filme documentário com o nome dessa aldeia. A boa-nova é que não foi necessária a intervenção do Governo de Haiti para se levar água pura à La Source. A vontade e acção do povo é que fizeram a mudança...

Para as comunidades de La Source, dizer Josué Lajeunesse pouco difere de afirmar Martin Luther King Jr. Ele é um verdadeiro herói – felizmente vivo – do povo. Como o pensamento de um simples zelador da Universidade de Princeton pôde reverter-se numa acção que modificou a história da vida de 5 mil pessoas e das comunidades em torno de La Soure?

Narrada num meio de informação muito ‘frio’ – como o jornal – a história é verosímil. Mas é verdadeira. O cinema tem a imagem viva. Em movimento. E quando se trata de um filme-documentário, ninguém duvida, porque se vê a mudança a acontecer. O povo, movido pelo amor puro e sincero de Josué e pela concórdia, levou água até La Source. Está-se diante daquelas histórias verídicas que que pouco se repetem. “Josué está preocupado com uma questão que carrega desde a infância. A população de La Source tem dependido de uma nascente de água nas montanhas, como sua única fonte de abastecimento de água potável”.

“Alcançá-la implica uma caminhada diária tortuosa, e uma viagem de regresso ainda mais perigosa, montanhas abaixo, carregando vários galões de água. As pessoas caem, machucam- se e sofrem amputações das pernas e dos braços”, narra-se no documentário. Dessa realidade – dura – fundou-se uma das questões fundamentais da vida de Josué. “Desde a infância, eu sempre me perguntava. Porque é que eu tinha de transpor todas aquelas montanhas em busca de água? Porquê?”

O protagonista de La Source emigrou de Haiti, em 1989, para os Estados Unidos, onde trabalha como zelador da Universidade de Princeton e taxista. Ele teve de aprender tudo do zero. A língua, os códigos culturais, incluindo adaptar-se ao clima local – tudo para garantir o bem-estar dos seus familiares em Haiti. Ele é um pai solteiro com quatro filhos.


Na verdade, “Josué é uma pessoa que leva uma vida muito intensa. Ele está constantemente focalizado nas preocupações dos outros do que nos seus próprios problemas. É como se ele carregasse o peso do mundo. Por isso dá a impressão de estar cansado”, afirma Patrick Shen, o realizador de La Source. E era necessário que assim fosse. A sua causa é sublime. Afinal, para muitas pessoas que, em La Source, são incapazes de, diariamente, caminhar até à fonte, o Rio Grosseline, que corre perto da vila, é a sua única opção para ter a água.

No riacho – tido como uma salvação – as pessoas tomam banho, lavam tudo, desde a roupa, peças domésticas, até o gado. É também o local onde se extrai água para preparar as refeições. A água não é potável porque – nela – as pessoas e os animais fazem todas as suas necessidades. Já se viram ali cadáveres a boiar. Recentemente, o Governo dos Estados Unidos, através do Centro Cultural Americano – Martin Luther King Jr., criou condições para que se projectasse o filme em diversos lugares de Maputo, incluindo alguns bairros suburbanos.

Evidentemente que Moçambique e Haiti são países diferentes, mas há um aspecto que se aprende da história de Josué Ljeunesse que se aplica em todo o mundo. “É que quando uma pessoa pretende alcançar um objectivo e tem a perseverança de se empenhar por ele – dia e noite – no fim o mesmo concretiza- se”, refere Patrick Shen. O realizador afirma também que uma das perguntas recorrente sempre que se apresenta o filme é “porque é que não se envolveu o Governo de Haiti para levar água potável às comunidades de La Source? A resposta é simples: é que o processo levaria muito mais tempo e, se calhar, nunca se iria materializar”.


A construção do fontanário que há mais de um ano jorra água pura em La Source é o resultado de doações de pessoas singulares e de diversas organizações envolvidas. Foram precisos 25 mil dólares americanos para a materialização do projecto que só foi possível graças à solidariedade popular. Até as crianças prestaram oferendas à iniciativa. Tal como acontece em Os Reis Filósofos – o outro filme de Patrick Shen – La Soure retrata “a sabedoria que pode ser encontrada nos lugares mais improváveis e inimagináveis. Foram visitadas várias universidades nas quais se entrevistava pessoas de classe social muito baixa – como, por exemplo, os zeladores de limpeza”.

A história de Josué Lajeunesse é muito inspiradora de tal sorte que o personagem acabou por merecer uma distinção na Universidade de Princeton. E não faltam argumentos. “Ele optou por fazer dos problemas alheios os seus próprios problemas. E ele, como Martin Luther King Jr., inspirou tantos de nós com o poder do que pode realizar um Homem empenhado. O que o torna um merecido vencedor do Prémio Journey 2011 para a categoria Special Achievement”.

“Haiti, a República da Esperança”

TV Diário




William Tanida e Douglas Campos: experiência inesquecível / Foto: Divulgação


A série de reportagens “Haiti, a República da Esperança”, do repórter e apresentador William Tanida, da TV Diário, afiliada da Rede Globo, começa a ser exibida nesta terça-feira, dia 1º, no Diário TV – 1ª Edição, ao meio-dia. O especial irá ao ar nas cinco terças-feiras deste mês de outubro.

O jornalista, que integra a equipe de reportagem da TV Diário, há 13 anos, desde que ela iniciou as suas atividades em Mogi, viajou ao Haiti em Missão de Paz da ONU (Organização das Nações Unidas), na companhia do repórter cinematográfico Douglas Campos, com militares da Força Aérea Brasileira (FAB), por meio da ação do Ministério da Defesa.

Tanida e Campos embarcaram para Porto Príncipe, capital haitiana, no dia 24 de agosto. Após quatro escalas e 12 horas de viagem, eles chegaram ao destino, juntamente com a missão da ONU que ajuda na reconstrução daquele país, devastado por um terremoto em 2010. “Há uma troca de militares a cada seis meses, mas no meio desse período, a FAB viaja ao Haiti para verificar o andamento da ação. E o convite surgiu nesse meio tempo. A experiência foi inesquecível, e posso afirmar que foi uma das viagens mais inesquecíveis e importantes que fiz, desde que comecei a integrar a equipe da TV Diário”, destaca o jornalista, lembrando que já viajou a trabalho para países como Japão, Nova Iorque e Antártida, mas nada foi tamo marcante como essa que ele fez ao Haiti.

O telespectador, diz Tanida, vai poder saber um pouco mais sobre como vivem os haitianos, que sofrem com a falta de comida e chegam a comer barro, terra, para suprir essa necessidade básica. Segundo ele, 80% da população não têm água encanada: “Isso me marcou muito, emocionalmente, aprendi a dar valor às coisas mais simples da vida”.

Durante a viagem, no mercado Salomão, o repórter encontrou um militar da FAB, o cabo Gilmar, que é de Ferraz de Vasconcelos. Essa será uma das pautas que o telespectador irá conferir na série, que estreia nesta terça. “Há também entrevistas com mogianos que já foram ao Haiti, em Missão de Paz, mas que já voltaram para o Brasil”, revela. As missões tiveram início em 2005 e os procedimentos de atuação são estabelecidos pela ONU. (Maria Salas)

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Morador de Ferraz de Vasconcelos ajuda na reconstrução do Haiti

G1

Ele faz parte de missão da ONU que atua no país.
Terremoto destruiu o local em 2010.


Desde o terremoto de 2010 que deixou mais de 250 mil mortos, entre eles, 20 brasileiros o Haiti é um país em reconstrução. Para isso conta com a ajuda humanitária de mais de 50 países, inclusive o Brasil. Os habitantes do Alto Tietê também estão nessa luta.

Gilmar de Souza Fernandes é cabo da Força Aérea Brasileira. Ele é morador de Ferraz de Vasconcelos e saiu do município para atuar nas Forças Armadas. Fernandes conta que seu grande sonho sempre foi servir em uma missão de paz. Há dois meses, ele trabalha na capital do Haiti, Porto Príncipe, na Missão da Organização das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah). A missão é formada por mais de 6 mil militares de 18 países. “É uma imensa satisfação estar aqui, representando Ferraz de Vasconcelos e o Alto Tietê. Há nove anos estou na Força Aérea e servir nessa missão é a realização de um sonho”, afirma o cabo.

Apesar de todas as dificuldades que enfrenta no Haiti, Fernandes diz que ajudar o povo haitiano é uma imensa alegria. “Quando eu vejo o sorriso de uma criança haitiana, recarrego as baterias.” Fernandes encontra na satisfação do trabalho uma forma de driblar a saudade que sente de Ferraz de Vasconcelos. "Porto Príncipe e Ferraz de Vasconcelos são duas cidades com características semelhantes. As mesmas dificuldades que vejo na minha cidade encontro aqui também. Mas, no fundo, tudo é novidade e a cada dia é um trabalho diferente. Eu nunca imaginei estar aqui”, detalha o cabo da Força Aérea.

Fernandes assim como os outros militares são chefiados na Minustah pelo general brasileiro Edson Leal Pujol. "A importância das Nações Unidas se fazerem presentes aqui, de enviarem uma missão é na tentativa de ajudar o governo haitiano, ajudar o país a se fortalecer e se reestruturar para dar condições de prosseguir em busca de um futuro melhor!", explica Pujol. O contingente de brasileiros é o maior de todos com 1,4 mil militares.

O trabalho dos integrantes da Minustah não é fácil. Apesar de estar no Caribe rodeado por um mar de azul cristalino, o Haiti é um país marcado pelo caos e pela tragédia. Além do pior terremoto do século em 2010, os furacões arrasam cidades inteiras, sendo uma média de 20 por ano. Segundo a Minustah, dos 9,8 milhões de habitantes, 90% não têm energia elétrica, 80% não possuem água encanada, 70% estão desempregados e mais da metade são analfabetos.

Cotidiano

A Minustah transformou uma antiga fortaleza de 1794, um dos pontos mais altos de Porto Príncipe, no “Forte Nacional”. No local é possível avistar o porto do Haiti, o centro urbano e a Catedral de Notre Dame destruída pelo terremoto. “Nós nos encontramos no centro, inseridos na área de responsabilidade do batalhão. Nós temos condições de observar não só a nossa área como também as áreas de outras companhias podendo comunicar oportunamente o comando do batalhão sobre qualquer fato e até mesmo intervir prontamente se preciso for”, explica o capitão e subcomandante da 1ª Companhia de fuzileiros da Força de Paz, Túlio Pires Barbosa.

Ruas da área central de Porto Príncipe são apertadas
(Foto: Willian Tanida/TV Diário)

A principal atividade dos brasileiros no Haiti são as patrulhas. Isso porque a polícia haitiana ainda não tem condições de, sozinha, garantir a segurança.

O trânsito nas ruas de Porto Príncipe é caótico e sem nenhum respeito. Não há transporte público, a população se vira como pode nos "tap taps" ônibus extravagantemente decorados à moda haitiana.

Muitos passageiros corajosos vão pendurados em caminhonetes adaptadas e até em cima de caminhões. Em algumas motos é possível ver até três 3 pessoas. Nos horários de pico, 1 quilômetro pode demorar até mais de duas horas para ser percorrido embaixo de um calor de 40 graus na sombra o dia inteiro.

Esgoto forma pequenas lagoas na área do Mercado Salomão
(Foto: Willian Tanida/TV Diário)

Se o transporte é improvisado, o comércio não fica para trás. Um dos principais centros de compra da capital haitiana é o "Mercado Salomão".

Os produtos ficam espalhados no chão acondicionados em cestas e balaios. Mesmo com alimentos repletos de moscas e vendidos ao lado de poças com água de esgoto, o mercado ainda é considerado um dos mais organizados da cidade.

Outro local muito popular para compras é o “Mercado da Venezuela” também conhecido como “Cozinha do Inferno”. A ideia do espaço foi dos venezuelanos e a característica principal do local é que os vendedores carregam na cabeça seus produtos. O apelido o mercado ganhou por causa de matadouro que fica na mesma área e que usa métodos cruéis, segundo os haitianos, no abate dos animais.

A atuação da Minustah não fica restrita apenas a capital do Haiti. Eles também circulam por outros municípios, como Cité Soleil. Segundo a Missão das Nações Unidas, a cidade é uma das mais complicadas para o patrulhamento por causa dos becos estreitos. “É difícil mapear esses becos. A população também às vezes coagida pode estar escondendo criminosos e eles se misturam em meio a população. Assim fica meio difícil identificá-los. O calor também atrapalha um pouco”, diz o capitão Victor Berbardes de Faria.

Biscoitos de lama do Haiti
(Foto: Reprodução/TV Diário)

É em um dos becos de Cité Soleil que a situação de miséria do Haiti se materializa. Alguns moradores do local montaram uma fábrica de biscoitos. Mas, o espanto é em relação a matéria-prima principal do produto: lama.

Os haitianos misturam barro, manteiga, sal e água. E depois de misturar os “ingredientes” e dar o formato do biscoito, eles são colocados ao sol para secar. A família responsável pela fábrica informa que produz cerca de 2,5 mil biscoitos por dia. Eles vendem seis unidades por US$ 1.

Produtos são vendidos no chão no Mercado Salomão
(Foto: Willian Tanida/TV Diário)