sábado, 30 de março de 2013

General brasileiro assume comando da missão de paz da ONU no Haiti

Terra Brasil
Agencia EFE

O general brasileiro Edson Leal Pujol tomou posse nesta quinta-feira como chefe do contingente militar da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah) por um período de 12 meses.

Leal Pujol, de 58 anos, assumiu suas novas funções em cerimônia liderada pelo enviado especial das Nações Unidas e chefe da Minustah, Nigel Fisher.

Fisher declarou que a posse do general brasileiro é uma "importante" tradição militar que representa a transferência formal da autoridade e responsabilidade de um comandante-em-chefe a outro.

"Também é um símbolo de compromisso e continuidade do trabalho da missão e da consolidação da paz", acrescentou o diplomata canadense.

Fisher assegurou que Leal Pujol continuará o bom trabalho que realizou seu antecessor, o também general brasileiro Fernando Rodrigues Goulart.

Goulart disse, por sua parte, que apesar das dificuldades foi capaz de trabalhar com profissionalismo, ao mesmo tempo em que expressou sua alegria por ter servido no Haiti. O alto oficial foi condecorado por Fisher com a Medalha das Nações Unidas.

O general Pujol nasceu em Dom Pedrito, Rio Grande do Sul, e se incorporou ao Exército em 1971. Antes de ser enviado ao Haiti foi chefe do centro de inteligência do Exército em Brasília.

Pujol Leal é casado e tem três filhos.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Brasil reduz presença no Haiti

AFP
De Yana MARULL (AFP) – 10/03/2013


Soldado brasileiro da Minustah cumprimenta menino haitiano em favela de Porto Príncipe
(AFP, Vanderlei Almeida)

PORTO PRÍNCIPE — O Brasil realiza neste mês uma redução de seu contingente militar no Haiti, quase uma década depois de desembarcar no país, em 2004, no comando da força militar da missão de paz da ONU.

A partir de 27 de março até junho o Brasil enviará 460 militares para casa, colocando fim ao segundo batalhão criado diante da emergência do terremoto de 2010, informou o comandante do contingente brasileiro, coronel Rogério Rozas.

A brasileira continuará sendo a força mais numerosa no Haiti e o corte é parte de uma redução progressiva de capacetes azuis, que teve seu número ampliado após o terremoto que em 2010 matou 220.000 mil pessoas e deixou outras 2,3 milhões desabrigadas. Japão e Coreia já deixaram o país, depois de terem participado dos trabalhos de reconstrução, e a Argentina está retirando 147 militares.

A Missão de Estabilização para o Haiti (Minustah) foi criada pelo Conselho de Segurança da ONU em 2004, após a crise que levou à saída do país do ex-presidente Jean Bertrand Aristide e que desencadeou uma onda de violência.

O ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva (2003-2010), grande embaixador da diplomacia do Sul que buscava projetar o Brasil na política mundial e conquistar um assento permanente no Conselho de Segurança, havia mobilizado um grande contingente.

Quase uma década depois, o Haiti "está estável e seguro" e o objetivo da ONU antes de sair é transferir a segurança à polícia e realizar eleições periódicas, disse à AFP o chefe da força militar da ONU, general Fernando Goulart.

Em 2004, "muitos bairros precisaram ser conquistados a tiros", lembra Rozas.

"Na época, o povo haitiano não confiava nestas tropas, não gostavam de ter uma presença estrangeira", afirma Pierre Andregene, tradutor para a ONU. Os haitianos foram aceitando-as porque enfrentavam altos níveis de violência, acrescenta.

Um golpe de mestre de Lula foi levar ao Haiti os brasileiros mais conhecidos do mundo: a seleção de futebol.

No dia 18 de agosto de 2004, o Haiti parou para ver Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Roberto Carlos, que diante de multidões percorreram a capital. O "Jogo da Paz", que terminou com a vitória do Brasil por 6 a 0, serviu para lançar uma campanha de desarmamento.

Desde 2005, a força militar ampliou suas funções com engenheiros que faziam obras civis, como perfuração de poços, neste país de escasso acesso à água potável e à eletricidade. Após o terremoto, essas funções foram ampliadas, com remoção de escombros, reconstrução e assistência humanitária. Hoje, a companhia de engenheiros do Brasil dirige uma fábrica de asfalto; e a da Argentina, um hospital.

A presença brasileira deixou uma marca e hoje é raro encontrar um jovem haitiano que não arrisque algumas palavras em português. Em um show de pagode para famílias pobres em uma praça de Porto Príncipe, as crianças avançavam sobre os microfones dos soldados: sabem de cor a popular música do cantor Michel Teló "Ai se eu te pego".

"Os haitianos gostam do Brasil e isso facilitou o cumprimento da missão. O futebol foi quase um cartão de visitas", declara à AFP o contra-almirante Paulo Zuccaro.

O Haiti também teve seu impacto no Brasil, já que a experiência contra a violência urbana em Porto Príncipe foi muito útil na ocupação das favelas do Rio de Janeiro desde 2010.

O Brasil, que nesta década passou a ser a sexta economia do mundo, atraiu após o terremoto um êxodo de haitianos, que entravam ilegalmente por perigosas rotas amazônicas.

As filas em frente ao consulado em Porto Príncipe são diárias e a presidente Dilma Rousseff se comprometeu em 2012 a garantir 100 vistos por mês.

O Haiti continua sendo o país mais pobre das Américas, com 40% de sua população em situação de insegurança alimentar.

"Desde 2004 vi uma melhora no fortalecimento das instituições e na percepção de estabilidade. Isto denota um êxito da Minustah. Os problemas econômicos exigem mais esforço para serem superados, mas sem estabilidade e instituições isso não acontecerá", explica o contra-almirante Zuccaro, que participou do primeiro contingente, em 2004, e que retornou periodicamente, as últimas vezes em 2010 e neste mês.

O contingente militar da Minustah é integrado por militares de Argentina (574), Bolívia (207), Brasil (1.910), Chile (509), Equador (67), Filipinas (159), Guatemala (138), Indonésia (168), Jordânia (252), Nepal (362), Paraguai (162), Peru (371), Sri Lanka (861) e Uruguai (949).

Ação para reestruturar saúde no Haiti completa três anos

Portal da Saúde – Ministério da Saúde


Evento celebra o aniversário da ação que vai aplicar US$ 60 milhões na melhoria dos serviços de saúde e de vigilância no país

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, participou nesta quarta-feira (27) de evento em comemoração aos três anos da Cooperação Tripartite Brasil-Cuba-Haiti. A estratégia é responsável por reestruturar o sistema de saúde haitiano, abalado por terremoto em 2010 e é a maior cooperação internacional desenvolvida pelo Brasil na área da saúde. O auxílio brasileiro ao Haiti utiliza recursos no valor de US$ 60 milhões até 2014 para operações de assistência especial no exterior e assistência humanitária ao Haiti. O país recebe ações voltadas para as áreas de Atenção à Saúde, Vigilância Epidemiológica e formação de recursos humanos.
O ministro recepcionou a vice-ministra de Saúde de Cuba, Márcia Cobas, a ministra de Saúde do Haiti, Florence Guillaume, orepresentante residente do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Jorge Chedieke o representante da Organização Panamerica de Saúde no Brasil, Joaquin Molina.
Alexandre Padilha disse que a cooperação com o país é uma ação humanitária que defende o princípio de que a saúde é um direito, conforme previsto na Constituição Brasileira. “A cooperação visa construir uma saúde pública no Haiti para atender as necessidades do povo haitiano. Além de afirmar a necessidade e a importância dos países terem serviços públicos universais de saúde”, afirmou.
ASSISTÊNCIA - O projeto desenvolve iniciativas destinadas a melhorar a assistência em saúde e o atendimento à população haitiana. Serão entregues ainda esse ano três hospitais de referência para atender uma população de cerca de 300 mil habitantes – que vão atuar de forma articulada com a rede de Atenção Básica do país –, e um centro de assistência à pessoa com deficiência, único do Haiti que atenderá as demandas da especialidade. Trinta ambulâncias já foram entregues para integrar o sistema de urgência e emergência em Porto Príncipe.
VIGILÂNCIA EM SAÚDE–Uma das ações desenvolvidas pelo governo brasileiro foi o financiamento da reconstrução de dois laboratórios especializados, inaugurados em novembro de 2012. A ação representou o investimento de R$ 1 milhão, usado na reforma das instalações físicas e compra de equipamentos.
As duas unidades serão responsáveis por realizar os principais exames necessários à identificação de doenças de interesse em saúde pública, como malária, dengue, tuberculose, hanseníase e cólera, além de realizarem o controle de vetores e insetos.
O Ministério da Saúde também disponibilizou, este ano, cerca de R$ 2 milhões para contratação de profissionais especializados em prevenção e controle de doenças transmissíveis, e para o custeio de apoio operacional, financeiro e material das ações de vigilância no país. Foram selecionados e contratados 13 profissionais haitianos especializados e com ampla experiência em vigilância epidemiológica.
Além disso, o Ministério doou mais de 6 milhões de doses de vacinas BCG (formas graves de tuberculose), Pólio (poliomielite), DPT (difteria, tétano, coqueluche) e DT (difteria e tétano), o que correspondeu ao investimento de R$ 3,6 milhões.
FORMAÇÃO–O projeto realiza também a formação de agentes comunitários para atuarem na Atenção Básica do Haiti. Este ano, foi iniciada a capacitação de 320 alunos. A meta é formar cerca de 1 mil agentes comunitários. O Ministério da Saúde participou ainda do desenvolvimento do currículo dos cursos, treinamento de professores, locação de salas, implantação de uma secretaria escolar e aquisição de equipamentos, computadores e na produção editorial de materiais didáticos para as aulas. Até 2014, está prevista a aplicação de aproximadamente R$ 5 milhões para a área de formação profissional do país.

domingo, 17 de março de 2013

Por Um Novo Haiti 2013 - Vídeo Promocional


Vídeo da Família Missionária Por Um Novo Haiti, da Junta de Missões Mundiais, compartilhando sobre o Campo Missionário, o Projeto e os Desafios para 2013.

Oportunidade para você se conectar ao que Deus está fazendo Por Um Novo Haiti!


quinta-feira, 14 de março de 2013

A força do Haiti

Diário do Nordeste



Livro organizado pela jornalista Adriana Santiago mostra um país para além da pobreza e das tragédias naturais


O material, fruto de um projeto da Adital, é ricamente ilustrado com imagens que mostram um povo de cultura rica e forte instinto de sobrevivência: exemplo de união e determinação diante de enormes dificuldades fotos: reprodução

A cultura é a verdadeira força para a reconstrução nacional do Haiti. A constatação é do padre Ermanno Allegri, diretor da Agência de Informação Frei Tito para a América Latina (Adital), que confessa ter ficado chocado ao visitar pela primeira vez o país, um dos primeiros das Américas a se tornar independente, no início do século XIX, mas que tenta até hoje se livrar do jugo de colonizadores, a exemplo das forças de Napoleão Bonaparte, vencidas em 1804, data da independência. No entanto, a luta não terminou com os franceses. Ao longo dos anos, vieram se juntar outros "donos" da ilha Hispaniola, cujo povo assistiu à dizimação total de sua população indígena e seu povo ser escravizado, mas que nem por isso sucumbiu. Pelo contrário, tenta, em plena época pós-colonial, lutar pela "refundação". Dessa vez, sem derramamento de sangue, mas usando as manifestações artísticas e a força da organização dos movimentos sociais - mulheres, comunicação alternativa e economia solidária, entre outros - para acabar com o estigma de que o Haiti é sinônimo de dor, calamidades e ajuda humanitária, esta última, nem sempre é revertida em benefício desse povo, que tem no vodu (culto religioso) sua principal manifestação cultual, influenciando as demais linguagens artísticas como pintura, literatura e escultura.

Para trazer à tona um pouco dessa história, mas com um olhar no futuro, durante 18 meses, um grupo de jornalistas brasileiros e haitianos, sob a coordenação da Adital, caiu em campo para escrever o livro "Haiti por si: a reconquista da independência roubada", cujo lançamento acontece, nesta quinta, às 15h30, durante audiência pública, no Auditório Deputado Almir Pinto, no complexo das Comissões Técnicas, Assembleia Legislativa do Ceará. Numa rápida leitura pelas 180 páginas da obra, ricamente ilustrada com flagrantes de gente em movimento, quer trabalhando ou fazendo arte, é possível comprovar que o trabalho da equipe, coordenado pela jornalista Adriana Santiago, responsável pela organização da obra, foi cumprido. Na realidade, os seis capítulos do livro de reportagens, como define Adriana, mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e professora de Jornalismo da Universidade de Fortaleza (Unifor), fruto de 18 meses de trabalho, revela o esboço de um outro Haiti.

Com prefácio de Adolfo Pérez Esquivel, arquiteto, escultor e ativista de direitos humanos argentino, apresentação do padre Ermanno Allegri e contribuição de Frei Betto, o livro mostra um Haiti das possibilidades. O primeiro capítulo conta um pouco sobre a história do Haiti, passando pela catástrofe que acometeu a capital Porto Príncipe, em 12 de janeiro de 2010, seguida de uma epidemia de cólera. Além de abordar a soberania alimentar, alternativas de desenvolvimento econômico e social, a exemplo das casas de farinha, beneficiamento de leite, a cultura e a construção da resistência, enfatiza o trabalho dos movimentos de mulheres, rádios comunitárias e a democracia participativa. Merece destaque o capítulo 5, intitulado "A cultura como vitrine", abordando o "vodu", manifestação religiosa que já foi proibida, fazendo com que seus praticantes fossem mortos, além do artesanato em ferro. Aliás, segundo Nélio Joseph, que assina o capítulo dedicado às manifestações culturais, é no campo das artes que o Haiti se torna competitivo no contexto internacional. Ele declara que a literatura haitiana se afirma como uma das mais "borbulhantes e visíveis do Caribe".

Adriana Santiago conta que foi necessário entender o Haiti, país formado por vários povos africanos que foram escravizados, como um lugar além das imagens de terremoto e desgraças. Na primeira visita, em 2011, pensou que fosse encontrar apenas gente precisando de ajuda, fraca. Ficou surpresa ao "perceber a força interna" que brotava daquela gente, que usa os escombros deixados pelo terremoto para oferecer a sua arte. Destaca a construção histórica daquela pequena ilha, com uma população estimada em 10,5 milhões de pessoas, ocupando território que corresponde a um terço da área do Ceará, que possui 8 milhões de habitantes. "Era um lugar de índios que foram dizimados e de negros que foram levados para o tráfico", pontua, afirmando não compreender, logo à primeira vista, a disparidade entre o Haiti e a República Dominicana, que fica logo ali e tem vida melhor. "Esses paradoxos chamaram a atenção da gente", diz. Daí a sua primeira indagação: "onde estão os haitianos?". O discurso que deveria ser assumido pelos habitantes da pequena ilha, que respira cultura por todos os lados, é ocupado pela Organização das Nações Unidas (ONU), por exemplo. Depois das observações iniciais, surge a ideia central do livro: "a refundação do Haiti", país que possui história bastante particular, sendo alvo de interesses de vários colonizadores, pagando caro por sua independência, um acordo com a França o qual passaram 100 anos pagando, diz a jornalista. Localizada numa zona estratégica perto de Cuba e dos Estados Unidos, o Haiti também é alvo de cobiça dos franceses e espanhóis.

As manifestações artístico-culturais constituem um dos principais patrimônios dos haitianos. "A vida deles é baseada no crioulo haitiano", conta, citando o lakul, que constitui formação de aldeias com terrenos destinados às conversas, momento de socialização onde partilham uma das suas principais riquezas: o vodu, forma de religião. "Tiveram sua cultura destruída, sendo proibidos de falar o crioulo e praticar o vodu". Adriana afirma que os haitianos se destacam em diversos campos da produção artística mundial, sobretudo na literatura. "Se eles têm esse valor no campo das artes, faltam políticas públicas", observa, esperando que o livro ajude nessa construção de um novo Haiti. O material reúne ousadia, pesquisa e força de vontade. "Queríamos mostrar o que está sendo feito para a construção da cidadania e da democracia no Haiti", resume o padre Ermanno Allegri.

Mais informações:

Lançamento e audiência pública sobre livro "Haiti por si: a reconquista da independência roubada", hoje, às 15h30, no Auditório Deputado Almir Pinto, complexo das Comissões Técnicas, Assembleia Legislativa do Ceará, Avenida Desembargador Moreira, 2807, Dionísio Torres. Preço: R$ 45, no site adital.com.br

IRACEMA SALES
REPÓRTER

Haiti: pais deixam filhos em orfanato para que possam ter o que comer

Terra Brasil



Em meio à extrema miséria, muitos pais haitianos tomam uma difícil decisão: deixar seus filhos em um orfanato, para que tenham o que comer e acesso à educação, em um país já marcado pela miséria antes mesmo do violento terremoto há três anos.

Este foi o caso dos pais de Berzelais, que deixaram o filho há seis anos no orfanato Rose-Mina de Diegue, na capital do Haiti, que hoje acolhe 96 menores e é um dos poucos que tem condições de dar alimento diário e educação regular a seus internos.

Barzelais tem agora 18 anos e não pretende se desligar da instituição.

Come e vai para a escola, um luxo para muitos em seu país. Também ajuda a cuidar das crianças do orfanato, explica à AFP este jovem que perdeu uma das pernas em um acidente quando criança e que, segundo os funcionários do local, é muito bom com equipamentos eletrônicos.

Esta é uma história que se repete no orfanato comandado por Osvaldo e Rolande Celestin Fernandes. Ele um militar argentino que há mais de uma década deixou seu país para se casar com uma pastora de uma igreja protestante haitiana que dedica sua vida aos pobres.

"As mães chegam o tempo todo sem possibilidades de criar seus filhos, e nós os aceitamos, órfãos ou não. Aqui comem todos os dias e vão à escola, e por isso suas famílias acreditam que podem viver melhor", explica Marie Sandra Edouard, filha de Roland Celestin e que é responsável pelo local na ausência de seu pai.

As crianças, muitas delas com visíveis sequelas da desnutrição com a qual tiveram que conviver desde o nascimento, têm entre 0 e 18 anos, e o orfanato está em um dos raros bairros em condições menos precárias.

"Sempre falta dinheiro. Damos o que comer às crianças três vezes ao dia, mas é uma tarefa quase impossível", explica Marie Sandra.

Hoje, os pequenos correm alegremente ao redor de um grupo de soldados voluntários da Companhia de Engenharia do Brasil, que trouxe alimentos ao orfanato. Se servem, uma, duas, três vezes em pratos que chegam a transbordar do cozido levado à mesa com o maior cuidado, até aqueles que mal aprenderam a andar.

A capitão Tatiana Microni carrega em seus braços uma menina de um ano e meio de idade que não parece ter mais do que sete meses. "Quando chegou aqui estava muito pior, agora com a comida está se recuperando aos poucos", explica.

No Haiti, segundo dados do programa da ONU para o Desenvolvimento, 22% das crianças com menos de cinco anos sofrem de desnutrição crônica. Antes do devastador terremoto de 2010, a situação era ainda pior: 30%.

Cerca de quatro milhões de pessoas vivem em condições de insegurança alimentar neste pais de dez milhões de habitantes, uma situação agravada com a seca e os furacões do final do ano passado, explica à AFP o representante no Haiti da FAO (Organização da ONU para a Alimentação e a Agricultura), Frits Ohler.

"Dois terços da população no Haiti vive no campo e da agricultura, ainda assim, mais de 50% da comida consumida no país é importada", explica o responsável.

Melhorar a produção agrícola no país depende de desafios que vão dos extremos climáticos até a falta de definição sobre a titularidade das terras, baixa produtividade, alta degradação ambiental, com apenas 2% das florestas preservadas, e em determinados períodos uma escassez de sementes para o plantio que se inicia agora.

O Haiti foi devastado por um terremoto em 2010, além de uma epidemia de cólera que tirou a vida de milhares de haitianos.



Uma frágil paz no Haiti

Terra Brasil



Dois blindados da Marinha brasileira avançam durante a noite pelas tortuosas e escuras ruas de Porto Príncipe com 14 fuzileiros fortemente armados; não há disparos e a aparente tranquilidade mostra a frágil paz vivida pelo Haiti quase uma década após a chegada da ONU, em 2004.

Os blindados Piranha abrem as portas e os soldados percorrem já sem o armamento pesado e à pé as ruas de uma favela e as passagens, como um labirinto, de um acampamento de desabrigados pelo terremoto de 2010, composto por centenas de barracas rudimentares construídas com pedaços de paus e sacos.

O silêncio de noite é interrompido pela tosse de um menino; o cheiro de fezes e de urina toma conta do local; uma moto aparece em uma esquina, um grupo de homens na outra, a patrulha os cumprimenta, comprova que não há nenhum problema, continua.

Patrulhas como esta são rotina em um país dividido em setores entre as tropas que integram os capacetes azuis da ONU, boa parte delas sul-americanas.

Assim como ocorreu no conjunto de favelas do Caju e na Barreira do Vasco, favelas no Rio de Janeiro conquistadas neste último fim de semana sem que um só disparo fosse feito, o efeito dissuasivo da presença armada massiva é grande. Isso permite uma aproximação maior dos capacetes azuis que levam água potável, médicos e até animadas sessões de cinema às comunidades mais pobres.

A situação não era essa quando as tropas da ONU chegaram, em 2004, devido ao conflito desencadeado após a saída do ex-presidente Jean Bertrand Aristide. "Muitos destes bairros foram sendo conquistados em confrontos a tiros, rua a rua", explica à AFP o comandante do contingente brasileiro, o de maior presença no Haiti, coronel Rogério Rozas.

Mas a dramática pobreza é uma porta aberta à violência, denuncia Leonard Gregory, um líder comunitário de Bel Air, o coração político da capital do Haiti, com grande incidência de violência.

"Se tivermos segurança, poderemos solucionar o resto dos problemas", explica à AFP.

No Haiti, três em cada quatro dos dez milhões de habitantes são pobres, o acesso à água, à eletricidade ou inclusive à moradia em condições é muito deficitário e 350 mil pessoas ainda vivem em acampamentos miseráveis desde o terremoto que em 2010 matou 220 mil pessoas.

O país avança em direção a uma transição que levará a ainda precária Polícia Nacional a assumir a segurança.

"Um aspecto primordial do mandato da ONU é reestruturar a polícia. Uma polícia eficiente e capaz em todo o país é uma condição para que a missão da ONU termine seu mandato no que diz respeito à segurança", explica à AFP o comandante da força militar da ONU no Haiti, o general brasileiro Fernando Rodrigues Goulart.

O governo acaba de lançar um plano para elevar de 10 para 15 mil os efetivos de sua polícia até 2016. Esta polícia já acompanha as patrulhas e assume parte da responsabilidade na segurança.

"Existe uma falta de confiança entre as comunidades e a polícia", explica Daniel Delva, um haitiano que coordena programas de pacificação de favelas da ONG brasileira Viva Rio no Haiti.

"É um momento difícil, notamos que a delinquência, que com a entrada das tropas da ONU diminuiu, agora volta a aumentar. O terremoto desorganizou tudo, milhares de presos escaparam das prisões, o desemprego é gigante, não há programas para os jovens que deem alternativas à delinquência", explica.

A Viva Rio, no Haiti desde 2004, acaba de lançar com as autoridades locais, a polícia e a ONU um programa para aproximar a polícia e as comunidades, como já faz nas favelas do Rio de Janeiro, dominadas durante décadas pelo tráfico e onde uma solução foi criar polícias comunitárias, com ações culturais e sociais incluídas, porque "para o desenvolvimento social é preciso ter paz e para a paz é preciso ter desenvolvimento social", explica o ex-comandante da Polícia Militar do Rio de Janeiro e coordenador da ONG, Ubiratan Angelo.

"Aplicamos a mesma aproximação que no Rio, porque é uma realidade parecida, embora aqui o motivo da vigilância não seja o tráfico, mas sim (um problema) econômico, social e político", segundo Delva.

A violência doméstica e contra a mulher é grave, e também cresce o temor de que a convocação de eleições locais neste ano eleve os ânimos políticos.

Em 2012, voltou a crescer um problema de antigos membros do Exército dissolvido por Aristide, que, com a promessa do governo de reativar as Forças Armadas, voltaram a sair às ruas com suas velhas armas para recuperar sua força, explica Goulart. A ação da ONU e as negociações com o governo acabaram com esta situação, assegura.

Após quase uma década no país, a missão da ONU começou a reduzir seus efetivos militares (atualmente 6.690) aos níveis de antes do terremoto, mas não tem data para sair.


terça-feira, 12 de março de 2013

Le Nouvelliste - Labadie, un contraste choquant

Le Nouvelliste

Publié le :11 mars 2013
Hansy Mars hansymars@lenouvelliste.com

Entourée de montagnes magnifiques avec une végétation exotique, Labadie, le paradis privé de Royal Caribbean International, se trouve sur la côte nord d'Haïti. Cette destination haut de gamme combine plages vierges, paysage à couper le souffle et activités nautiques spectaculaires. Cependant, à quelques kilomètres de la plage, des milliers de personnes se démènent pour leur survie.

Rodeada de montanhas magníficas com uma vegetação exótica, Labadie, o paraíso particular da Royal Caribbean International, está localizado na costa norte do Haiti. Esse destino de luxo combina praias virgens, paisagens deslumbrantes e atividades náuticas espetaculares. No entanto, a alguns kilômetros da praia, milhares de pessoas estão lutando por sua sobrevivência. 

L'entrée du village Labadie
Hansy Mars

Le site balnéaire de Labadie est un domaine privé qui permet aux croisiéristes du monde entier de bénéficier d'une journée de plage, où, outre le farniente, ils peuvent pratiquer des activités nautiques (planche à voile, apnée, ski nautique, kayak). Bref, c'est une escale de détente. Ce n'est pas seulement une presqu'île de détente dotée de belles plages et d'un havre aux eaux profondes, mais c'est aussi toute une localité.

Qui ne se souvient pas de cette chanson de l'orchestre Tropicana d'Haïti vantant les richesses de la zone. « Labadi son paradi », fait savoir la chanson qui invite plus d'un à visiter cet endroit un peu spécial. Le site est connu sous le nom de Cocoa Beach alors que la localité qui regroupe et le site balnéaire et le village porte le nom de Labadie. Entre Cocoa Beach et le village Labadie, c'est tout un monde de différences. Le contraste avec la misère est effrayant pour un visiteur.

Autrefois, c'était difficile de visiter Labadie en toute sérénité, ce lieu touristique très choyé dans la cité christophienne, en raison du mauvais état de la route qui y conduisait. Rocailleuse et poussiéreuse à la fois. Impraticable. La réhabilitation du tronçon de route reliant Cap-Haïtien et Labadie a été réalisée à l'occasion du carnaval national. Le tap-tap qui vous conduit là-bas doit débarquer ses passagers aux abords du site de Cocoa Beach. Les habitants ainsi que les visiteurs doivent attendre le départ d'un canot à moteur pour se rendre au village de Labadie. La terre de la banane. Elle produit également des vivres alimentaires, des fruits et légumes. Labadie est aussi une zone d'élevage. La pêche est la principale activité de la population. Bien qu'on la pratique aujourd'hui encore de manière archaïque, elle permet à ceux qui s'y adonnent de subvenir à leurs besoins.

15 gourdes. C'est le montant à payer pour la traversée jusqu'au village à bord du canot pouvant contenir jusqu'à une douzaine de passagers. Ils sont rares les canots qui possèdent des bouées de sauvetage comme l'exige le Service maritime national d'Haïti (Semanah). Une installation de fortune sert de débarcadère dans les moments d'accalmie. Un vrai exercice de bravoure pour certains. Du canot étant on peut admirer les belles plages du site balnéaire avec ses nombreux visiteurs en train de se payer un bronzage. De l'autre côté, la dure réalité. Les infrastructures de base n'existent pas. Sans eau potable, sans électricité, sans dispensaire, sans présence policière, la population estimée à plus de 2 000 habitants est livrée à elle-même. Comme bien d'autres régions du pays, elle fait face à une érosion poussée car le charbon de bois est la seule énergie de cuisson pour la population.

A cette situation vient s'ajouter la fermeture du site aux Haïtiens. Les gens croient que cette décision n'a fait qu'aggraver davantage la misère des riverains. Un comité local est constitué pour gérer les affaires de la cité. Ce comité ne fait pas l'unanimité. Décrié, ses décisions ne sont pas respectées. Les habitants du village critiquent les responsables de la compagnie d'exploitation du site balnéaire de Labadie de ne pas faciliter le développement communautaire de la région. Ils fustigent le comportement de la société gérante de Labadie qui continue à débarquer ses passagers de l'autre côté pendant qu'eux se démènent pour survivre. « Face à cette situation de pauvreté extrême au village, les agriculteurs abandonnent les terres cultivables au profit d'un job temporaire sur le site de Cocoa Beach », fait remarquer Johnson Charles, un jeune de la localité. Pour Johnson, l'idéal c'est de contraindre les autorités gouvernementales à prendre leur responsabilité pour s'assurer du bien-être de la population.

Royal Caribbean, propriétaire des plages de Labadie, paie 10 dollars américains au gouvernement haïtien pour chaque passager qu'elle y débarque. Et elle y débarque plus d'un million de croisiéristes par an. La compagnie a déjà investi 55 millions de dollars américains pour agrandir les installations portuaires, de manière à pouvoir y accueillir les plus gros paquebots du monde, tels que l'Oasis of the seas. La compagnie emploie près de 230 personnes pour entretenir les installations, préparer le buffet, encadrer les activités nautiques, etc. Elle permet aussi à autant de vendeurs itinérants de venir y installer leurs étals. Bref, 500 personnes - et leurs familles - dépendent de l'activité économique générée par l'expoitation du site.

domingo, 3 de março de 2013

Falta de esperança reina em acampamentos no Haiti

EXAME.com
Vanderlei Almeida, da


Thony Belizaire/AFP

Destruição no Haiti: após o terremoto de 2010, o Haiti ainda viveu uma dramática epidemia de cólera e furacões devastadores.
Porto Príncipe - "Aqui temos todos os problemas do mundo", afirma Joceline Vilsen, com os braços cruzados, em frente a sua precária barraca, rodeada de escombros e lixo, resumindo o horror que significa viver em Jean-Marie Vincent, maior acampamento de desabrigados da capital do Haiti, que acolhe 26.000 pessoas, três anos após um terremoto.

Com o olhar perdido, responde que "não" à pergunta sobre se comeu hoje. "É difícil conseguir a comida diariamente; quando não temos o que comer, ficamos de braços cruzados", admite resignada, descalça junto a sua filha de um ano que brinca distraída em meio à poeira.

As cerca de 8.000 famílias que vivem no gigantesco acampamento chegaram aqui após o terremoto que no dia 12 de janeiro de 2010 acabou com a vida de mais de 220.000 pessoas e que deixou 2,3 milhões sem abrigo.

Três anos depois, 347 mil pessoas ainda vivem em um dos 450 campos de desabrigados, segundo um censo recente da ONG CCCM (Camp Coordination and Camp Management).
O acampamento Jean Marie Vincent é um inferno de calor, poeira, escombros e esgoto lotado por milhares de barracas, construídas com paus e pedaços de sacos, muitas ao redor das carcaças de aviões e helicópteros do que foi uma base aérea, situada no centro da cidade.

"Quando chove, isto é uma catástrofe", explica James Saintlouis, presidente de um comitê de moradores do acampamento.

"É muito difícil encontrar trabalho: não há emprego e não há ajudas. Muitos saíram daqui pela violência, estupravam as mulheres, agora isso melhorou um pouco", afirma este homem de 30 anos que vive com sua esposa e três filhos de 7, 5 e 3 anos, e que veste orgulhoso uma camisa da seleção argentina com o número 10 de Messi.

O futebol o faz sorrir: "no Haiti quem não está com a seleção do Brasil, está com a da Argentina", explica.

Um grupo de crianças em trapos ou algumas até sem roupas segue a patrulha militar brasileira da missão de capacetes azuis da ONU, que percorre o acampamento para garantir a segurança.

"Acabou a comida", afirmam em português em frente a uma barraca que anuncia: "Eglise de Dieu, Nouvelle Vie" (Igreja de Deus, Nova Vida).

Pierre Mariciene, de 52 anos, se deixa pentear por sua filha em frente a sua barraca, na qual cabem com dificuldade duas camas e algumas poucas roupas e baldes velhos. São três da tarde e diz não ter comido nada hoje. Até água é um luxo por aqui.

Em dezembro, as tropas brasileiras e as organizações locais limparam um anfiteatro que durante três anos serviu de latrina ao ar livre, na falta de banheiros no local. Atualmente, as crianças têm um lugar para correr, quase como um parque, e em alguns dias as tropas passam filmes, explica orgulhoso o comandante do contingente brasileiro, Coronel Rogério Rozas.

Dieuna Lentant, de 34 anos, lava os sapatos puídos de seus cinco filhos, de 17, 14, 8, 5 e 2 anos. Apenas os dois mais velhos vão à escola porque não há dinheiro para enviar os outros, explica, e ela sobrevive vendendo o que encontra nas ruas.

"Não tínhamos esta miséria antes do terremoto, veja você como vivemos", lamenta. Seu marido faleceu no tremor, quando a loja na qual trabalhava desabou e ela acabava de ficar grávida.

Após o terremoto, o acampamento chegou a abrigar 60.000 pessoas.

A organização intergovernamental IOM, em colaboração com instituições locais, lançou em janeiro um programa que tenta ajudar as famílias de Jean Marie Vincent, e que consiste em entregar um subsídio de renda por um ano a cada família, explica à AFP a responsável de comunicação, Michela Macchiavello.

Cerca de 700 famílias já receberam os subsídios para ter acesso a uma casa, e o objetivo é esvaziar o acampamento em um ano.

"Os acampamentos que selecionamos foram definidos com uma lista de prioridades, são os que estavam em piores condições", explica a representante. A organização informa que, se tivesse mais financiamento, conseguira alcançar muito mais famílias em outros campos.

Muitas das famílias de Jean Marie Vincent sonham com uma vida melhor, embora surja uma pergunta comum: "se não vamos encontrar trabalho, o que acontecerá conosco?", questiona Naser Uselene.

Após o terremoto de 2010, o Haiti ainda viveu uma dramática epidemia de cólera e furacões devastadores.

Atualmente, este acampamento ainda é uma amostra de um país no qual 76% da população vive na pobreza, mais de 35% não tem acesso à água potável e 22% das crianças com menos de cinco anos sofrem de desnutrição crônica, segundo dados do Programa da ONU para o Desenvolvimento (PNUD).

A ajuda dos soldados brasileiros às crianças no Haiti

afpbr

A ajuda que não ajuda o Haiti

EXAME.com

Três anos depois do terremoto que destruiu o Haiti, o mundo descobriu que os bilhões arrecadados pela indústria das ONGs fazem mais bem a elas mesmas do que aos pobres

Fabiane Stefano, de




São Paulo - Nos últimos 40 anos, os países ricos direcionaram nada menos que 5 trilhões de dólares em ajuda humanitária no mundo. Num primeiro momento, a caravana do bem foi festejada como a solução para a pobreza e os flagelos na África, na Ásia e na América Latina.

O tempo passou e as promessas de um mundo livre de miseráveis não se concretizaram — ainda hoje 1,3 bilhão de pessoas vivem com menos de 1,25 dólar por dia. E a ajuda humanitária internacional, que movimentou cerca de 136 bilhões de dólares em 2011, passou a ser vista cada vez com mais descrédito.

O exemplo mais recente de que boas intenções e muito dinheiro não são suficientes vem do Haiti. Três anos depois do terremoto que destruiu o país e com 9 bilhões de dólares gastos em ajuda humanitária, o Haiti continua a viver sob o caos.

Ainda hoje, 360.000 pessoas vivem em tendas em campos de desabrigados na capital, Porto Príncipe. Mais de 80% da população não tem acesso a água potável. Um livro publicado em janeiro, The Big Truck That Went By: How the World Came to Save Haiti and Left a Disaster Behind ("O caminhão que passou: como o mundo veio salvar o Haiti e deixou para trás um desastre", numa tradução livre), do jornalista americano Jonathan Katz, ilustra bem a triste realidade do país.

Katz foi correspondente da agência de notícias Associated Press durante quatro anos no Haiti e acompanhou os reforços de reconstrução. Seu relato é desalentador. Katz descreve a rotina burocratizada do trabalho humanitário, a falta de coordenação nas operações e o desperdício de dinheiro.

O jornalista cita o exemplo do americano Mike Godfrey, experiente funcionário da USAid, a agência americana para o desenvolvimento internacional. Nas semanas seguintes ao terremoto, Godfrey participou de longuíssimas reuniões para apresentar procedimentos burocráticos a voluntários que ficariam apenas algumas semanas no país.

Maior desastre natural enfrentado pela Organização das Nações Unidas, o terremoto no Haiti também é o evento que mais arrecadou ajuda humanitária no mundo. Já foram angariados 13 bilhões de dólares, sendo que 9 bilhões foram desembolsados — os 4 bilhões restantes serão aplicados até 2020. O dinheiro arrecadado é quase o dobro do custo estimado da tragédia, de 7,8 bilhões de dólares.

"O grande problema do Haiti é que o país virou uma república de organizações não governamentais", diz a pesquisadora Vijaya Ramachandran, do Centro para o Desenvolvimento Global, de Washington. "As ONGs captam o dinheiro, mas não têm capacidade de coordenar a construção de rodovias ou de infraestrutura de energia."

Estima-se que mais de 1.000 ONGs operem no país hoje, com enorme sobreposição de atividades entre elas. Outro problema recorrente envolvendo as ONGs é a falta de transparência na aplicação dos recursos. De cada 100 dólares que elas gerem no país, apenas 2 dólares (sim, 2 dólares) são rastreados e sua aplicação é conhecida. Um convite ao desperdício e ao desvio de verbas.

O mundo das ONGs é extremamente heterogêneo. Há organizações sérias que sabem o que estão fazendo. Também há gente bem-intencionada que faz tudo errado. E há ainda a turma que se aproveita do drama alheio para faturar. No Haiti, o rapper celebridade Wyclef Jean, nascido no país e criado nos Estados Unidos, foi um dos que acabaram no terceiro grupo.

Sua fundação, a Yele Haiti, foi acusada de alocar no país apenas um terço dos fundos arrecadados. O cantor é uma figura tão popular no país que até foi cogitado que ele poderia concorrer à Presidência (a candidatura não foi para a frente porque Jean não era residente no Haiti). No fim do ano passado, a Inglaterra e a Irlanda suspenderam a ajuda humanitária a Uganda porque 15 milhões de dólares que deveriam patrocinar programas de desenvolvimento acabaram na conta-corrente do primeiro-ministro do país.

Indústria da filantropia 

A ajuda humanitária não é uma invenção do século 20 (a caridade religiosa nasceu praticamente junto com o cristianismo). A diferença é que nas últimas décadas ela se transformou num setor da economia global. Estima-se que existam 70.000 ONGs com atuação internacional.

O atual modelo de ajuda humanitária se popularizou no final dos anos 60 com a guerra civil de repressão a Biafra, Estado com pretensões separatistas ao sul da Nigéria. Biafra foi o primeiro conflito na África a ser televisionado. Os milhões de crianças espremidas entre a guerra e a fome comoveram o mundo e mobilizaram voluntários ao redor do planeta.

Aí, o dinheiro começou a fluir. Até hoje, a África é o principal destino dos recursos da ajuda humanitária. Em 2011, as doações ao continente somaram 49 bilhões — 37% do total angariado. Na Índia, onde a indústria da filantropia também prospera, há 3,3 milhões de entidades não governamentais nacionais — uma para cada 400 habitantes.

Esses dados têm levado a um número crescente de céticos quanto à eficiência da aplicação dos recursos. "A ajuda humanitária não vai tirar nenhum país da pobreza", diz o ativista de direitos humanos David Rieff, que escreveu em 2002 o livro A Bed for the Night: Humanitarianism in Crisis ("Cama por uma noite: o humanitarismo em crise", numa tradução livre). "Apenas um governo estruturado com uma economia funcionando desenvolve um país." Sem isso, não há bilhões que resolvam as agruras dos países pobres.