quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Pobreza no Haiti leva à lotação de orfanatos



The New York Times

PORTO PRÍNCIPE, Haiti - Orfanatos lotados de crianças pontilham a paisagem, alguns com placas no portão, outros escondidos em ruas secundárias. Mas muitas dessas crianças não são órfãs. No Haiti, uma campanha está em curso para fechar o máximo possível dessas instituições.

Numa delas, o missionário americano Chris Savini embalava um bebê de dez meses. A mãe do bebê morreu, e o pai, Luxe Étienne, sobrecarregado com oito filhos, entregou seis deles a orfanatos.

"Ele sabia que era a melhor aposta para o seu filho", disse Savini, que conseguiu que um casal dos EUA adotasse o bebê da Mission Une Seule Famille en Jésus Christ, nos arredores de Porto Príncipe.

Esses arranjos são tradicionais no Haiti. Depois do terremoto de 2010, ficou claro que a maioria das crianças nas centenas de orfanatos do Haiti tem pai ou mãe vivos.

Reuters
Criança espera por adoção em orfanato de Porto Príncipe. A pobreza leva muitos haitianos a entregarem filhos. Autoridades, ativistas dos direitos infantis, líderes religiosos e outros decidiram que era necessária outra abordagem.

Das quase 30 mil crianças em instituições haitianas e das centenas que são adotadas por estrangeiros a cada ano, o governo estima que 80% tenham pelo menos um dos pais vivos.

É a pobreza que leva os pais a entregarem seus filhos para orfanatos. Muitos acreditam que essas instituições forneçam escolaridade básica e alimentação. Numa visita ao orfanato que cuida de três dos seus filhos, Étienne disse ter dificuldade para ganhar a vida como autônomo e que mal é capaz de manter os dois filhos que permaneceram em casa. "Se eu tivesse renda suficiente, eu já os teria levado de volta para casa", disse ele.

O governo haitiano pretende desempenhar um papel maior nas adoções. Nos casos envolvendo crianças que não são órfãs, as autoridades desejam conversar com os pais naturais para obter o consentimento para a adoção e oferecer assistência caso eles desejem permanecer com seus filhos. "Não queremos que a pobreza seja a única motivação", disse Arielle Jeanty Villedrouin, que assumiu no ano passado a direção nacional de bem-estar infantil.

O governo já começou a inspecionar as instituições. A vasta maioria dos orfanatos funciona sem licença. Só 112 estão credenciados.

Com uma equipe de 160 inspetores, o governo já avaliou 725 orfanatos e encontrou 72 sem condições mínimas de funcionamento. Desde setembro de 2011, 26 fecharam.

Mas os fechamentos pararam, porque há poucos orfanatos credenciados para receber as crianças enquanto o governo localiza suas famílias, segundo Villedrouin.

Brad Johnson, diretor do orfanato e da escola da Missão de Esperança Haiti, aplaudiu a meta governamental de manter as crianças com as famílias, mas disse ser improvável que isso vire realidade se a economia haitiana não melhorar.

"Quando não houver crianças sentadas na rua morrendo, vamos parar de ter um orfanato", disse ele.

"Neste momento, a realidade é que é preciso haver orfanatos no Haiti."
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