segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Técnico brasileiro do Haiti enfrenta deserções, fome e utopia sobre vaga na Copa



Levado ao comando da seleção do Haiti em 2010 através de um projeto da ONG Viva Rio, o técnico brasileiro Edson Tavares enfrenta na América Central o trabalho mais difícil de uma carreira descrita por um currículo recheado de passagens por lugares exóticos do futebol, como Omã, Kuait e Vietnã.

No entanto, mais do que o desafio técnico de buscar evolução da equipe número 117 no ranking da Fifa, Tavares se vira para comandar um projeto em uma nação miserável devastada por um recente terremoto, que vê alguns de seus principais atletas desertarem a cada oportunidade que aparece no exterior.

As condições de trabalho oferecidas ao brasileiro são sofríveis e improvisadas no país de pior índice de desenvolvimento humano das Américas, segundo a ONU (25º pior do mundo).

"A infraestrutura é o maior problema. Normalmente, antes do terremoto, as equipes treinavam em Miami, num CT da seleção americana em Orlando. Depois do terremoto, se perdeu tudo, também a possibilidade de ir aos EUA. Tudo porque os caras desertam. Fui jogar dois meses atrás lá e perdi quatro jogadores. Eles desertam, não tem como você controlar. Ficamos com o passaporte deles, mas eles fogem mesmo assim, na calada da noite, com alguém esperando com carro ligado, essas coisas", relata o brasileiro.

Tavares também lida com a precariedade da "infraestrutura humana", já que a maioria dos jogadores com quem trabalha tem possibilidade de fazer apenas uma refeição por dia, como a maioria da população. Por essa e outras razões, o técnico acaba recrutando atletas que atuam nos EUA e França para as partidas internacionais mais importantes.

HAITIANOS QUEREM 2014: "REIS DA ILUSÃO"

Além das deserções, Tavares diz atuar para controlar a noção de realidade dos homens do futebol haitiano, que acreditam em uma improvável vaga na Copa do Mundo de 2014 no Brasil.

"Eles são os reis da expectativa, vivem de ilusão. Falei com o presidente, disse que sem investimento não dá. Não adianta ter o sonho de jogar a Copa no Brasil. Eles têm uma adoração pelo Brasil às vezes maior do que a nossa. Mas os países do lado investem, não são miseráveis. A federação americana investe US$ 70 milhões por ano, a Jamaica US$ 25 milhões, Trinidad, US$ 15 milhões. E eles têm retorno desse investimento", conta.

Atualmente a seleção do Haiti conta com o auxílio de material esportivo da Adidas. No entanto, a empresa alemã decidiu não investir no futebol do país, a despeito de um pedido da Fifa, relata o treinador brasileiro.

No sorteio realizado no Rio de Janeiro no último sábado, o Haiti ficou no grupo F das eliminatórias da Concacaf, junto com as seleções de Antígua e Barbuda, Curaçao e Ilhas Virgens. Pelo sistema de disputa adotado, a equipe de Edson Tavares precisa obrigatoriamente vencer a chave para duelar com EUA e Jamaica na fase seguinte.

Com forças tradicionais como México e Estados Unidos, a Concacaf oferece três vagas diretas no Mundial, através de seu sistema de disputa. Ainda uma quarta seleção terá chance de brigar por uma vaga através de repescagem contra um representante da Oceania.
Postar um comentário