415 A luta por um primeiro ministroPorto Príncipe, Haiti, 26/8/2011 – Nos três meses em que ocupa o cargo de presidente do Haiti, Michel J. Martelly já fracassou duas vezes na indicação do primeiro-ministro. O parlamento rejeitou Bernard Gousse, por seu passado como funcionário da ditadura de Gérard Latortue, e o empresário Daniel Rouzier. Gousse recebeu o voto negativo de 16 senadores, devido aos seus péssimos antecedentes em matéria de direitos humanos quando foi ministro da Justiça de Latortue (2004-2006), e Rouzier foi rejeitado pela câmara baixa por questões técnicas. Enquanto Gousse foi ministro, as prisões ficaram lotadas de presos políticos, a maioria de bairros pobres onde o deposto presidente Jean-Bertrand Aristide tinha muitos adeptos.

O país não tem primeiro-ministro que realize o programa do novo presidente. Um capítulo é o ensino primário gratuito para meninos e meninas, que a população espera que seja implantado a partir de setembro, quando as escolas reabrirem. Martelly deve conseguir que o parlamento aprove um primeiro-ministro, um grande desafio por não ter maioria própria. A Constituição prevê para estes casos que o chefe de Estado consulte os presidentes das duas câmaras. Alguns analistas responsabilizam pela situação o chefe do Estado Maior, Thierry Mayard Paul, e outros apontam os assessores de Martelly.

Os parlamentares precisaram recordar várias vezes ao presidente que ele foi eleito em março por apenas 700 mil votos, de um total de 4,5 milhões de eleitores aptos a votar. “Precisamos de um primeiro-ministro que possa reconciliar a nação. Não nos deteremos até que haja um novo primeiro-ministro”, disse Georges Sassine. A iniciativa é parecida com uma lançada por Aristide durante seu segundo mandato (2000-2004), chamada Caravane Espoire (caravana esperança), que acabou em golpe de Estado.

Alguns partidários de Martelly lhe pediram para dissolver o parlamento. Mas a questão que apresenta a atual situação é o quanto é verdadeiro o objetivo da Operasyon Gran moun Pa Jwe. Entre os assessores de Martelly está Nicolas Duvalier, de 29 anos, filho do ex-ditador Jean Claude Duvalier que regressou há pouco tempo ao país onde enfrenta acusações penais. Aristide também recebeu ameaças que, segundo os comentários, foram financiadas com US$ 11 milhões destinados pelo governo francês ao Ministério da Justiça do Haiti. Gousse teria realizado o projeto com entusiasmo. O governo de Marterlly tirou o automóvel de Aristide, mas o devolveu após protesto de seus partidários.

O senador Moïse Jean Charle, um dos partidários de Aristide do grupo de 16 senadores, criticou o comportamento do presidente de tentar impor um primeiro-ministro de sua preferência. Charle foi eleito prefeito de Commune Milot e esteve entre os que se opuseram ao golpe de Estado de 2004 no norte do país. As pessoas se perguntam sobre o rumo que Martelly quer dar ao país e cada vez mais se perguntam se não se trata de um títere de seu chefe do Estado Maior. “Thierry é a mão direita de Martelly e influi no processo de decisão do presidente, mas não pode ser o próximo primeiro-ministro. Não conseguirá”, disse uma pessoa próxima a Paul.

A divisão dentro da equipe de Martelly piorou sua situação. A apresentadora de rádio Nancy Rock afirmou, no dia 6, que alguém da equipe do presidente havia prejudicado a opção do mandatário, tendo Gousse como convidado. “Essa pessoa também trabalhou contra Rouzier e Gousse”, acrescentou. “Eles reconheceram que havia divisões entre os partidários do presidente e que obedeciam a interesses econômicos, não a um problema de cor ou de pobres e ricos, como muitos podem pensar”, afirmou. Rock recomendou a Martelly dar os passos necessários para se desfazer dessa pessoa. “O presidente deve se livrar desse homem. Não vou dar nomes, mas as pessoas sabem de quem se trata”, afirmou.

No entanto, Martelly parece incapaz de unir sua gente para escolher o primeiro-ministro. “Foram mencionados nomes de dois assessores presidenciais, Daniel Supplice e Wilson Laleau”, disse o senador Edwin Zenny. A Agência Haitiana de Imprensa informou no dia 17 que o nome do chefe do Estado Maior de Martelly estava na mesa. O grupo de 16 senadores teria se reunido dois dias depois para planejar uma estratégia caso o presidente designe de forma unilateral outra controvertida pessoa para o cargo de primeiro-ministro.