terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Candidato da situação vai deixar corrida presidencial no Haiti

(AFP) – Há 2 horas
PORTO PRÍNCIPE — O candidato da situação Jude Celestin, acusado de fraude, vai se retirar da corrida presidencial no Haiti, anunciou esta terça-feira um de seus assessores, o que pode ajudar a desbloquear a crise gerada após o controverso primeiro turno de novembro.
Celestin, afilhado político do presidente em fim de mandato René Preval, de quem é genro, não se apresentará ao segundo turno das controversas eleições presidenciais, disse à AFP o senador Moise Jean Charles, do partido governista Inité ('Unidade' em creole).

Celestin "escreverá ao CEP (Conselho Eleitoral Provisório) para informar sua retirada", disse o legislador.
O anúncio oficial da saída de Celestin será feito durante entrevista coletiva na quarta-feira, acrescentou.
Segundo os resultados preliminares do primeiro turno eleitoral de 28 de novembro, publicados pelo CEP no começo de dezembro, Celestin ficou em segundo lugar no primeiro turno eleitoral, em 28 de novembro, com 22% dos votos, atrás da ex-primeira-dama Mirlande Manigat (31%) e à frente, com 7.000 votos, do cantor Michel Martelly (21%).
Estes resultados, impugnados pela maioria dos candidatos em meio a acusações de fraude, desataram protestos e distúrbios que deixaram cinco mortos.
Também deixaram o Haiti em um limbo político, enquanto o país ainda luta por se recuperar de um terremoto devastador que, há um ano, deixou quase 250 mil mortos, e debelar uma epidemia de cólera, que matou quase 4 mil pessoas.
Uma missão de especialistas da Organização de Estados Americanos (OEA) analisou o pleito e recomendou a eliminação de Celestin do segundo turno, a favor de Martelly.
Com a saída de Celestin, disputarão o segundo turno Manigat e Martelly.
Espera-se que o CEP publique os resultados oficiais do primeiro turno eleitoral em 31 de janeiro.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Com ajuda brasileira, esporte surge como meio de reconstrução no Haiti


Corrida em Porto Príncipe é uma das iniciativas que tentam dar um
novo ânimo a um país onde apenas o futebol - a duras penas - resiste


Por João Gabriel RodriguesDireto de Porto Príncipe, HaitiGloboEsporte.Com
Nas ruas lotadas de Bel Air, estão todos aplaudindo em suas janelas ou portões. Ou em cima de escombros e lixo. Todos, também, com um sorriso no rosto, inclusive os adultos, transformando a cena em algo raro nos últimos tempos no Haiti. São 360 haitianos, além de outros 190 estrangeiros, correndo pelas vielas de um dos bairros mais pobres e violentos de Porto Príncipe. Em uma corrida de 6km organizada pelo Exército brasileiro, pela ONG Viva Rio e pela Prefeitura de Manaus, pouco importa o resultado. Em um país acostumado a perder, o escape na manhã de domingo parece perfeito de qualquer maneira, sem importar o fim.
corrida no Haiti Cerca de 360 haitianos participaram da corrida de 6km neste domingo (Foto: Antonio Lima / Divulgação)
No Haiti, reconstrução talvez seja a palavra mais usada. Em 2010, destruído pelo pior terremoto de sua história logo no início do ano, o país caribenho só teve motivos para lamentar. Sofreu com a ameaça do furacão Tomas; com os quase quatro mil mortos pela epidemia do cólera; e com o nascimento de uma nova crise política, com acusações de fraudes nas eleições e violência pelas ruas. No meio de tanta desordem, uma série de iniciativas espalhadas por Porto Príncipe tentam fazer do esporte uma alternativa para o povo haitiano. Vencedor da corrida de domingo, o corredor amador Baptiste Jean Robert, de 42 anos, festejou o alívio.
- Acho que, hoje, represento todos os haitianos. Sou um atleta amador, já corri na Venezuela, em Barbados e em outros lugares. Estou muito contente por ter uma corrida por aqui. Nunca vi uma festa como essa, com as pessoas correndo sem medo da violência.
corrida no Haiti Haitiano se prepara para histórica corrida nas ruas
de Porto Príncipe (Foto: Antonio Lima / Divulgação)
Acostumado a tantas vitórias, Claudinei Quirino há anos não participava de uma corrida. Prata nos Jogos de Sydney, em 2000, conquistou sua última medalha em 2005. Topou ir para o país para a Jornada Haitiana do Esporte Pela Paz, mas disse que não queria correr. No entanto, aceitou participar da largada e avisou que só estaria no primeiro quilômetro. Mas não aguentou quando viu a torcida na rua e resolveu completar o percurso.
- Todo mundo sabe que eu não corro 5km, 6km. Dei uma andadinha e ia parar, mas tinha que terminar. Você vê tanta tristeza... Foi a primeira vez que vi adultos dando risada desde que cheguei aqui. Ninguém veio para ganhar, e, por isso, todos são vencedores. Estamos mostrando que é possível mudar. Desde que cheguei, só tenho passado por coisas especiais. Aqui, tudo é superação. Quando você perde, sente dores em tudo quanto é lugar. Hoje não sinto nada. E eu não cheguei em último – disse o ex-velocista, que completou o percurso em 36 minutos e teve a companhia do também corredor Sandro Viana, do nadador Luiz Lima, do triatleta Nilo Arêas, da ginasta Dayane Camillo, do ex-jogador de vôlei Nalbert, do piloto Antonio Pizzonia e do lutador José Aldo.
Esporte como forma de reconstrução
corrida no HaitiBrasileiros e outros estrangeiros também correram
em Porto Prícipe (Foto: Antonio Lima / Divulgação)
A corrida de domingo faz parte de uma série de projetos que buscam, no esporte, um caminho para resgatar o orgulho do haitiano. Em um país apaixonado por futebol, é para dentro das quatro linhas que estão voltados os principais esforços. No quartel brasileiro, meninos haitianos fazem escolinha todos os sábados. Na cidade de Bon Repos, um novo Centro de Treinamento está sendo construído para incentivar o nascimento de novos craques.
Técnico da seleção masculina do Haiti, Edson Tavares também faz parte do projeto. Depois da parceria da Federação com a ONG Viva Rio, o treinador chegou para tentar fazer evoluir o futebol local. Após a construção do CT e a reforma do estádio Sylvio Cator, o treinador sonha com a volta do time do Brasil para Porto Príncipe.
- A importância (da volta da Seleção ao Haiti), para ser honesto, é tentar dar um acalento à população. Está todo mundo com muito medo ainda, por conta dessa instabilidade política.
Presidente da Federação de Futebol do Haiti, Yves Jean-Bart, porém, tem sonhos mais humildes. Para o dirigente, a miséria no país não atrapalha o crescimento do esporte. Mas faltam campos.
- Nós comemos uma vez por dia e já está bom. O que nos falta são campos. Não temos boas condições, não temos campos.
Outros esportes não têm local para prática
corrida no HaitiNalbert foi um dos brasileiros que prestigiaram o 
evento (Foto: Antonio Lima / Divulgação)
Se, para o futebol, as coisas são difíceis, para os outros esportes, o panorama é ainda pior. Nas últimas Olimpíadas, em 2008, em Pequim, apenas sete atletas do país conseguiram vaga. Foram dois no judô, um no boxe e outros quatro no atletismo. Na história, foram apenas duas medalhas, uma de prata e outra de bronze.
Depois do terremoto, no entanto, a situação ficou ainda pior. Com o surto do cólera, não há piscinas para a prática da natação na capital: todas estão destruídas ou fechadas devido à epidemia. Também são poucos os lugares disponíveis para treinamentos. Durante o evento de domingo, atletas brasileiros ministraram clínicas de esporte para crianças após a corrida, na sede da ONG Viva Rio. Foram quase duas horas de aulas de vôlei, atletismo, lutas, e danças. Ex-capitão da seleção masculina de vôlei, Nalbert se disse privilegiado por poder ajudar de alguma forma na reconstrução do país.
- É uma experiência única, uma das mais marcantes que eu já vivi. Chegar no Haiti e participar disso é especial. Nós estamos plantando uma sementinha. Eles ainda têm necessidades básicas, só pensam na próxima refeição. Mas o esporte ensina valores que eles precisam para reconstruir o país – disse o ex-jogador.
O representante do Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) no Haiti, Edmond Mulet, diz que a iniciativa brasileira é um passo para a mudança deste quadro.
- Hoje eu vejo o Haiti tomado por alegria. Há um esforço muito grande para o crescimento do esporte. Há um enviado especial da ONU que quer vir para o Haiti para ver os projetos. Ele está muito motivado para implantar isso em outras áreas de risco, como Afeganistão, Beirute, Irã... O esporte tem de estar presente em todos os lugares.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Oferecer chocolate pode incitar violência entre haitianos


Notícias do Terra - 19 de janeiro de 2011  10h39  atualizado às 10h45

Para as crianças ávidas por um chocolate, uma simples foto pode compensar a negativa do doce e trazer o sorriso de volta aos rostos. Foto: Laryssa Borges/Especial para Terra
Para as crianças ávidas por um chocolate, uma simples foto pode compensar a negativa do doce e trazer o sorriso de volta aos rostos
Foto: Laryssa Borges/Especial para Terra

    LARYSSA BORGES
    Direto de Porto Príncipe
    "Hey, you, chocolat", gritam crianças haitianas subnutridas aos capacetes azuis das Nações Unidas e àqueles que os adultos consideram quase "turistas da miséria" - repórteres, fotógrafos e artistas estrangeiros que visitam desabrigados e desalojados. O apelo por um agrado doce - motivado por soldados americanos a partir da ocupação do país em 1997 - é veementemente reprimido pelas atuais tropas da Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti).
    Qualquer gole de refrigerante dado a um dos milhares de órfãos da nação caribenha - estima-se que 380 mil crianças já estavam nessa condição antes do terremoto que devastou a ilha em 2010 - pode dar início a tumultos, quebra-quebra, violência e morte entre os necessitados, em especial contra o beneficiado pelas gotas de uma das Coca-Colas em poder da ONU.
    No auge da barbárie pós-terremoto, aqueles que saqueavam mercados semi-demolidos eram sumariamente assassinados. Eram relativamente frequentes tiros nas cabeças de crianças, adultos, homens ou mulheres. Um ano depois do pior tremor de terra da história do país, o receio é que a população volte a níveis de instabilidade próximos ao do início de 2010.
    Para as crianças ávidas por um chocolate, entretanto, uma simples foto pode compensar a negativa do doce e trazer o sorriso de volta aos rostos marcados por tragédias naturais e turbulências políticas. Se organizadas, elas formariam uma fila apenas para posarem aos estrangeiros. Na atual condição de ser um dos 56 mil habitantes do campo de desabrigados de Jean Marie Vincent - o maior de Porto Príncipe -, por exemplo, elas apenas se aglomeram diante dos forasteiros e posam orgulhosas: algumas nuas, outras maltrapilhas com enfeites improvisados nos cabelos.
    A realidade para além de momentos de distração para os pequenos haitianos é, no entanto, desoladora. O Unicef, fundo das Nações Unidas pela infância, estima que 4 milhões delas vivem em condições extremamente precárias. 380 mil são moradoras de um dos 123 campos de desabrigados e desalojados.

    segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

    Ex-líder "Baby Doc" volta ao Haiti após 25 anos de exílio

    16 de janeiro de 2011  21h49

    Terra Notícias

    Jean-Claude Duvalier, também conhecido como Baby Doc, acena ao chegar a Porto Príncipe, no Haiti. Foto: AP
    Jean-Claude Duvalier, também conhecido como Baby Doc, acena ao chegar a Porto Príncipe, no Haiti
    Foto: AP

    O ex-presidente do Haiti Jean-Claude Duvalier, também conhecido como Baby Doc, retornou ao país 25 anos depois de ser deposto por uma revolta popular.

    Duvalier, 59 anos, chegou ao aeroporto da capital Porto Príncipe no domingo, em um voo vindo da França, onde ele vivia exilado.
    O retorno inesperado de Baby Doc ao Haiti ocorre no momento em que o país enfrenta uma crise política, uma epidemia de cólera e as dificuldades da reconstrução após o terremoto devastador do ano passado que matou mais de 250 mil pessoas.
    Não se sabe ao certo o que motivou o regresso de Duvalier, mas ele disse que quer "ajudar o povo haitiano". O primeiro-ministro, Jean-Max Bellerive, disse que não há motivo para acreditar que a chegada de Baby Doc vá desestabilizar o país.
    "Ele é um haitiano e, como tal, é livre para voltar para casa", disse Bellerive.
    Governo violento
    Jean-Claude Duvalier tinha apenas 19 anos quando herdou o título de "presidente vitalício" de seu pai, François "Papa Doc" Duvalier, que governou o país de 1957 a 1971.
    Baby Doc é acusado de corrupção, repressão e abuso de direitos humanos durante o tempo em que esteve no poder, de 1971 a 1986. Como o pai, ele contava com uma milícia particular conhecida como os Tontons Macoutes, que controlava o Haiti usando violência e intimidação.
    Os Duvalier são tidos por analistas como dois dos mais violentos governantes da História.
    Vodu
    Papa Doc reforçou sua imagem ameaçadora com um culto de personalidade baseado no vodu haitiano, mas Baby Doc era visto como um playboy.
    Em 1986, ele foi deposto por um levante popular após pressão diplomática dos Estados Unidos e fugiu para a França, onde vivia exilado, apesar de nunca ter recebido asilo político formal.
    Em uma entrevista em 2007, ele pediu que o povo haitiano o perdoe por "erros" cometidos durante seu governo. Um pequeno grupos de partidários de Duvalier vinha fazendo uma campanha para que ele voltasse ao Haiti.
    Crise política
    O retorno de Duvalier ao país aconteceu no dia exato em que deveria ocorrer o segundo turno das eleições presidenciais no Haiti, mas a votação foi adiada por causa de uma disputa em torno dos nomes que deveriam constar na cédula eleitoral.
    O candidato governista, Jude Celestin, e o cantor Michel Martelly querem participar do segundo turno com a ex-primeira-dama Mirlande Manigat, considerada vencedora do primeiro turno, em 28 de novembro, em uma votação fortemente criticada por causa de relatos de fraude, violência e intimidação de eleitores.
    Resultados provisórios anunciados em dezembro pelo conselho eleitoral apontavam Celestin como o segundo colocado, com pequena vantagem sobre Martelly. Mas os resultados provocaram protestos violentos por parte de partidários de Martelly, que alegou ter perdido o segundo lugar por causa de fraudes.
    AFP