sexta-feira, 10 de setembro de 2010

No Haiti, futebol é remédio contra tristeza




Sonho. Atletas querem vaga para a Copa do Mundo
O terremoto de sete graus na escala Richter devastou o Haiti em janeiro, matou mais de 200 mil pessoas, mas não destruiu o sonho de 23 mulheres que tratam a bola com muita intimidade e carinho. Entre a esperança e a incerteza de um futuro melhor, a seleção feminina do país mais pobre das Américas chegou a Viçosa (MG), na última quarta-feira, cercada de euforia e com uma certeza: o futebol é o melhor remédio para minimizar um trauma impossível de ser apagado da noite para o dia.
"Só o futebol, a família, Deus e os amigos para me fazer esquecer a tragédia", disse Betty Sanoun, com voz baixa, jeito tímido e uma cicatriz no braço direito. Aos 25 anos, a jogadora quase perdeu a vida por causa do forte tremor. Ficou um dia inteiro debaixo dos escombros depois que sua casa desabou na capital Porto Príncipe. Foi resgatada por um amigo, a quem chama de herói.
Quando estava soterrada, Betty pediu a Deus, a todo instante, para não morrer. "Eu precisava viver. Sou muito nova, tenho um caminho pela frente. Foi muito duro", comentou a meio-campista, de cabeça baixa, olhando fixamente para o chão. A tristeza logo ficou para trás assim que falou sobre sua vinda ao Brasil, "Pátria que tanto amo."
Graças a uma parceria entre a Federação Haitiana de Futebol e a ONG Viva Rio, ela e as companheiras de time já passaram por exames físicos e médicos e vão treinar por três semanas na Universidade Federal de Viçosa. Depois, batem bola no Centro de Educação Física da Marinha, no Rio. Querem chegar bem na Copa Ouro, no fim de outubro, em Cancún - os dois primeiros colocados se classificam para a Copa do Mundo da Alemanha, em 2011.
Para um trabalho no mesmo molde, a seleção masculina do Haiti chega ao País no dia 13. "Disputar um Mundial seria o maior presente que poderíamos oferecer ao povo haitiano", ressaltou Betty, sem esquecer suas raízes. Lá, os poucos campos que restaram viraram refúgio para os desabrigados.
Em meio ao caos, as atletas são gratas por encontrar em Viçosa, uma cidade universitária localizada na Zona da Mata mineira, uma boa estrutura de trabalho e por receber uma "boa" acolhida dos funcionários da universidade e da ONG.
"A experiência vai ser fantástica", vibrou Betty, convicta de que o melhor ainda está por vir. Observador técnico da seleção, o haitiano Luc Elie Durlian ensina as meninas a olhar sempre para frente. "O mundo não acabou. Estamos vivos. Vamos trabalhar e lutar sempre." Seu entusiasmo só esfriou ao relembrar a tragédia. Ao ver sua casa "balançando" devido ao forte tremor, Durlian saltou do segundo andar e se agarrou a uma barra de ferro. Espatifou-se no chão e torceu o tornozelo, enquanto sua residência desmoronava. Sua maior dor, no entanto, foi saber que seu filho, de 19 anos, estava soterrado ali.
Agiu rápido, revirou alguns escombros e retirou o rapaz com vida. "Até morrer, nunca me esquecerei dessa tragédia. Penso nisso todas as noites. Foi muito cruel, um filme de terror." Desde então, a mulher dele está depressiva e sofre com pressão alta.
De quinze em quinze dias, tem de ir a um hospital buscar remédios. Isso o deixa muito preocupado. Atualmente, Durlian divide uma barraca bem pequena com outros quatro familiares. Passam fome e sede. "Só Deus mesmo." No momento do terremoto, várias jogadoras estavam em campo treinando e acabaram se salvando. A lateral Charles Fiorda não tem dúvida: o futebol lhe deu muito mais do que o simples prazer de chutar a bola.
"Poucos meses depois, participamos de um torneio no Caribe e, com muita união, nos sagramos campeãs. Queremos mais." 
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