segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

SOU BATISTA, TENHO UMA IDENTIDADE (Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho)

8. A AUTONOMIA DA IGREJA LOCAL Este é outro princípio batista inegociável. E é onde devocontextualizar um pouco mais porque temos problemas sérios nesta área.Surpreende-me, hoje, ler em jornais de procedência de instituiçõesbatistas artigos contra a autonomia das igrejas locais e até mesmoalguns lamentos de muitos por termos esta doutrina. Entendo quevivemos um tempo bem diferente do vivido há 20 anos. As estruturasdenominacionais passam por um processo de desgaste junto às igrejas.Sua imagem está afetada. Isto é conseqüência até mesmo de um dadocultural, a pós-modernidade, momento social em que vivemos e em que asestruturas são questionadas e deixadas de lado, e o individualismo écada vez mais acentuado. Para piorar, em algumas de nossasinstituições denominacionais houve má gerência, e a repercussão distoatingiu as demais. Em outras, aconteceu certo açodamento de pessoasque confundiram as coisas e conseguiram, com suas atitudes, criar umapostura refratária por parte das igrejas. Zelosas pelo seu trabalho,algumas pessoas começaram a pressionar as igrejas e a reclamar dasnão coloboradoras, muitas vezes insinuando não serem batistas ou seremdesengajadas da doutrina batista por não contribuírem financeiramentepara a instituição. Em outras vezes, a luta por poder, nos bastidores,em nada difere da luta que se vê no mundo. Esta confusão, para mim,se deu porque se ignorou o fato de que a estrutura é serva dasigrejas e existe em função delas e não o oposto. Nem mesmo chamonossas instituições de denominação porque denominação, no meuentendimento, são as igrejas e as doutrinas que elas sustentam. Chamode estrutura e as vejo como pára-eclesiásticas, ou seja, elas existempara caminharem ao lado das igrejas. Por isso, entendo que asestruturas precisam rever seus métodos e seu discurso. Não devemcobrar das igrejas, mas mostrar sua competência, sua administração comlisura, e como estão levando a obra das igrejas à frente. Parece-mesurrealista que alguns vejam as igrejas como adversárias dadenominação. Elas são a denominação! Não é segredo que as igrejas têm diminuído sua colaboração para aestrutura, tanto em finanças como em envolvimento. Os alvosmissionários não têm sido alcançados. Isto cria uma ansiedade porparte de quem gerencia um programa, pois precisa de recursos. Porisso, vez por outra se lêem artigos em que alguém reclama da autonomiada igreja local e critica as que não estão cerrando fileiras com aestrutura. Seria bom fazer com que as igrejas todas assumissem oprograma da estrutura e bem como os ônus decorrentes dafuncionalização do programa. Aliás, mais que surpreender-me, choca-me ver tais artigos defendendorestrição à autonomia das igrejas. Creio que isto não melhorará ascoisas, mas que as piorará. Afastará mais igrejas, ainda. Tentarenquadrar as igrejas é militar contra toda uma história quasequatrocentã. E não existe autonomia relativa. Ou há ou não há. Elassão autônomas, cem por cento autônomas. Quero citar um trecho de umlíder batista insuspeito, José dos Reis Pereira. Poucos batistasforam tão engajados na obra como ele. Certa vez, em uma carta, ele medisse que estava com 24 atribuições denominacionais. Reis Pereira foiuma vela que se gastou dos dois lados. Eis seu texto: "Os BatistasGerais decaíram à proporção em que uma forte tendência centralizadoratriunfava entre eles. Vitoriosa essa tendência a autonomia das igrejaslocais foi sacrificada. E é um outro princípio batista, esse daautonomia da igreja local" (Breve História dos Batistas, p. 81).Centralizar o poder ou as decisões e fortalecer o centro não melhoraráa situação. Reis mostra que a história já provou isso. Deve-sefortalecer e melhorar a base, que são as igrejas. Se estas foremfortes e sadias, a denominação será forte e sadia. Associações, convenções, juntas e assemelhados existem para servir àigreja local. Estas não são apenas pagadoras das contas, mas devem sersenhoras do processo denominacional. Isto deve ser reafirmado porque,se anos sessentas e setentas o modelo pentecostal foi nosso grandeproblema, nos anos noventas e nesta primeira década, nosso problemaparece ser o modelo presbiteriano. Não se deve nem se pode negar a autonomia da igreja local, até mesmoporque o Novo Testamento só mostra uma instituição, que é ela, edesconhece todas as que criamos. O que criamos não é antibíblico, masé abíblico. Não é errado, mas existe para funcionalizar e vitalizar aigreja local. O que devemos fazer é mostrar que as igrejas do NovoTestamento viviam em mutualidade, que se ajudavam, como Paulo mostraem suas cartas. Autonomia e mutualidade não são antônimos. Mostremosque as igrejas se engajavam em projetos comuns, mas tudo partia delas.Até mesmo o envio de missionários. Os missionários eram enviados pelasigrejas e eram missionários das igrejas e nunca enviados por umainstituição. Sei que os tempos são outros, as circunstâncias culturaissão outras, mas me parece que muitas vezes olhamos pelo lado errado dobinóculo. A pedra de toque do processo batista é a igreja local. Nestesentido, somos congregacionais desde nossa origem: o governo pertenceà congregação local e ela não está sujeita a nenhum outra instância. Ecooperação, sim. Mas sacrifício ou abandono da autonomia da igrejalocal, nunca! A grandeza desta doutrina nos permite declarar que a maior e mais ricaigreja batista vale tanto quanto a menor e mais pobre. E o que se fazem nome dos batistas precisa do aval moral das igrejas para tercredibilidade entre elas. Não se trata apenas de autonomia da igrejalocal, mas de sua soberania. As estruturas precisam compatibilizar-secom as igrejas. Até mesmo por um fator muito simples: precisam delaspara sobreviver.
Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho
Preparado para o Congresso de Identidade Denominacional, promovidopela Associação Batista do Litoral, na PIB de S. Vicente, em 27 deabril de 2001.
O autor é o pastor-titular da Igreja Batista do Cambuí, Campinas, eprofessor da Faculdade Teológica Batista de Campinas e do SeminárioBatista Bíblico de Campinas.
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